sábado, 10 de janeiro de 2015

EM BUSCA DA MEMÓRIA, DE ERIC KANDEL


[...] A memória sempre me fascinou. Pense no que ela é capaz de nos proporcionar. Podemos nos lembrar, por vontade própria, de nosso primeiro dia de aula na escola secundária, de nosso primeiro encontro, de nosso primeiro amor. Ao fazer isso, não nos recordamos somente do evento em si, mas experimentamos também a atmosfera em que ele ocorreu — os cenários, os sons, os cheiros, o ambiente social, o momento do dia, as conversas e o clima emocional. Recordar o passado é uma forma de viagem mental no tempo. Ela nos liberta dos limites temporais e espaciais e permite que nos movamos livremente ao longo de dimensões completamente outras. Toda revolução tem suas origens no passado, e a que culminou na nova ciência da mente não é nenhuma exceção. Embora o papel central da biologia no estudo dos processos mentais fosse novo, a capacidade dessa disciplina de influenciar o modo como o homem vê a si mesmo já estava em jogo. Charles Darwin provou que não somos uma criação especial, mas sim o produto de uma evolução gradual a partir de animais inferiores, que são nossos ancestrais. Darwin sustentou, além disso, que todas as formas vivas provêm de um ancestral comum — remontam à criação da vida propriamente dita. Ele propôs a ideia ainda mais arrojada de que a força que impulsiona a evolução não é nenhum propósito consciente, inteligente ou divino, mas um processo “cego” de seleção natural, um processo completamente mecânico de seleção por ensaio e erro, que atua com base nas variações hereditárias.
[...] A nova biologia da mente é potencialmente mais perturbadora, pois sugere que não apenas o corpo, mas também a mente e as moléculas específicas por trás de nossos processos mentais mais complexos — a consciência que temos de nós mesmos e dos outros, a consciência do passado e do futuro — evoluíram de nossos ancestrais animais. Além disso, ela postula que a consciência é um processo biológico que será um dia explicado em termos de vias de sinalização molecular utilizadas por populações de células nervosas em interação.
[...] As descobertas fornecidas pela nova ciência da mente se manifestam de maneira mais evidente em nossa compreensão dos mecanismos moleculares que o cérebro utiliza para armazenar as memórias. A memória — a capacidade de adquirir e armazenar informações tão simples quanto os detalhes da vida cotidiana e tão complexas quanto o conhecimento abstrato da geografia ou da álgebra — é um dos aspectos mais notáveis do comportamento humano. A memória nos possibilita resolver os problemas com que nos defrontamos na vida diária, evocando diversos fatos ao mesmo tempo, uma capacidade que é vital para a solução de problemas. Num sentido mais amplo, a memória proporciona continuidade às nossas vidas. Ela nos fornece uma imagem coerente do passado que coloca em perspectiva a experiência atual. A imagem pode não ser racional ou exata, mas é persistente. Sem a força coesiva da memória, a experiência se estilhaçaria numa quantidade de fragmentos tão elevada quanto o número de momentos de uma vida. Sem a viagem mental no tempo que a memória nos possibilita, não teríamos consciência alguma de nossa história pessoal, não teríamos nenhum meio de nos recordarmos das alegrias que servem como marcos luminosos em nossas vidas. Somos quem somos por obra daquilo que aprendemos e de que lembramos. Nossos processos de memória servem melhor às nossas necessidades quando podemos recordar facilmente os eventos prazerosos em nossa vida e diluir o impacto emocional dos eventos traumáticos e dos desapontamentos. Mas, às vezes, as lembranças terríveis persistem e arruínam a vida, como acontece no transtorno de estresse pós-traumático, condição da qual sofrem algumas pessoas que tiveram uma experiência direta dos eventos aterrorizantes do Holocausto, da guerra, de um estupro ou de um desastre natural.
[...] A nova ciência da mente acredita que o entendimento mais profundo da biologia da memória conduzirá a tratamentos mais eficazes tanto para a perda da memória quanto para a persistência das lembranças dolorosas. De fato, é bem provável que essa nova ciência venha a ter implicações práticas para muitas áreas da saúde. Ainda assim, seus objetivos vão além da busca de soluções para doenças devastadoras. A nova ciência da mente tenta penetrar o mistério da consciência, incluindo seu mistério maior: o modo como o cérebro de cada pessoa cria a consciência de um eu singular e o senso de livre arbítrio.

EM BUSCA DA MEMÓRIA – O livro Em busca da memória: o nascimento de uma nova ciência da mente, do neurocientista austríaco Eric Richard Kandel, trata sobre a memória pessoal e a biologia do armazenamento da memória, a infância, a educação americana, a célula, a fala e a célula nervosa, conversações entre as células nervosas, sistemas neuronais simples e complexos, os diferentes tipos de memória nas diferentes regiões do cérebro, em busca de um sistema ideal para estudar a memória, análogos neurais da aprendizagem, fortalecendo as conexões sinápticas, um centro para o estudo da neurobiologia e do comportamento, os mesmo os comportamentos simples podem ser modificados pela aprendizagem, a experiência modifica as sinapses, os fundamentos biológicos da individualidade, as moléculas e a memória de curto prazo, a memória de longo prazo, os genes da memória, o diálogo entre os genes e as sinapses, retornando à memória complexa, as sinapses também guardam nossas mais caras lembranças, a imagem cerebral do mundo externo, é preciso prestar atenção!, uma pilulazinha vermelha, ratos & homens e doenças mentais, um novo modo de tratar a doença mental, a biologia e o renascimento do pensamento psicanalítico, a consciência, redescobrindo Viena via Estocolmo e aprendendo com a memória: perspectivas.

REFERÊNCIA
KANDEL, Eric. Em busca da memória: o nascimento de uma nova ciência da mente. São Paulo: Companhia das Letras, 2009.

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