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quarta-feira, 29 de abril de 2015

A PSICANÁLISE DE FREUD


A PSICANÁLISE DE FREUD – A psicanalise é um termo criado por Freud em 1896, para nomear um método particular de psicoterapia e tratamento pela fala, proveniente do processo catártico de Josef Breuer e pautado na exploração do inconsciente, com a ajuda da associação livre, por parte do paciente, e da interpretação, por parte do psicanalista.

INCONSCIENTE – Em psicanálise, o inconsciente é um lugar desconhecido pela consciência: uma outra cena.
Na primeira tópica elaborada por Freud, trata-se de uma instância ou um sistema constituído por conteúdos recalcados que escapam às outras instâncias, o pré-consciente e o consciente.
Na segunda tópica deixa de ser uma instância para servir para qualificar o “isso” e, em grande parte, o eu e o supereu (Id, ego e superego).
O inconsciente possui uma particularidade de ser ao mesmo tempo interno ao sujeito e a sua consciência, e externo a qualquer forma de dominação pelo pensamento consciente. O pensamento inconsciente foi então domesticado, quer para ser interpretado na razão, quer para ser rejeitado para a loucura.
Os conteúdos do inconsciente não são as pulsões como tais, pois estas nunca podem tornar-se conscientes, mas o que Freud denomina de representantes-representações, uma espécie de representações das pulsões, baseados em traços mnêmicos. Esses conteúdos, fantasias e roteiros em que as pulsões estão fixadas, buscam permanentemente descarregar-se de seus investimentos pulsionais, sob a forma de moções de desejo. Entre esses conteúdos inconscientes, as diferenças concernem apenas à natureza e a força do investimento pulsional.
Para Lacan, o insconsciente tinha a estrutura radical da linguagem, sendo, pois estruturado como uma linguagem, sendo a linguagem a condição do inconsciente. A ideia lacaniana de uma primazia da linguagem e do significante, repousa no dado primordial de que o individuo não aprende a falar, mas é instituído ou construído como sujeito pela linguagem.
O isso é um termo conceituado por Freud para designar uma das três instãncias da segunda tópica freudiana, ao lado do eu e do supereu. O isso é concebido como um conjunto de contepudos de natureza pulsional e de ordem inconsciente.
O eu é a sede da consciência e é o lugar de um sistema pulsional: as pulsões do eu ficam a serviço da autoconservação, incluindo as necessidades orgânicas primarias não sexuais. Com a teoria do narcisismo, o eu passa a ser mediador da realidade externa e objeto de amor e reservatório da libido. Para Lacan, o eu é o núcleo da instância imaginaria na fase chamada de estádio do espelho, entendendo que o eu não pode reagir no lugar do isso, mas que o sujeito deve estar ali onde se encontra o isso, determinado por ele, pelo significante.
O supereu é conceito criado por Freud o qual mergulha suas raízes no isso e, de uma maneira implacável exerce as funções de juiz e censor em relação ao eu.

PULSÃO – É o termo empregado por Freud dentro de um conceito da doutrina psicanalista, definido como a carga energética que se encontra na origem da atividade motora do organismo e do funcionamento psíquico inconsciente do homem.
Para Lacan, a pulsão é um dos quatro conceitos fundamentais da psicanálise, entretanto, ele isola a elaboração freudiana de suas bases biológicas e insiste no caráter constante do movimento da pulsão, um movimento arrítmico que a distingue de todas as concepções funcionais. A abordagem lacaniana da pulsão increve-se numa abordagem do inconsciente em termos de manifestação da falta e do não realizado. Nessas condições, a pulsão é considerada na categoria do real, sublinhando que o objeto da pulsão não pode ser assimilado a nenhum objeto concreto. Para apreender a essência do funcionamento pulsional, é preciso conceber o objeto como sendo da ordem de um oco, de um vazio, designado de maneira abstrata e não representável. Assim, a pulsão é uma montagem, caracterizada por uma descontinuidade e uma ausência de lógica racional, mediante a qual, a sexualidade participa da vida psíquica, conformando-se à hiância do inconsciente, ou seja, a pulsão é sempre parcial, adicionando dois outros objetos pulsionais além das fezes e do seio: a voz e o olhar. E deu0lhes um nome: objetos do desejo.
A pulsão sexual é um impulso no qual a libido constitui a energia (diferente do instinto sexual nem se reduzindo às atividades sexuais). Não existe da infância à puberdade, assumindo a forma de um conjunto de pulsões parciais, ou seja, processo de apoio em outras atividades somáticas. Ela pode encontrar sua unidade através da satisfação genital e da função de procriação. Sua energia é de ordem libidinal e estão dominadas pelo principio do prazer. A pulsão sexual possui quatro destinos: a inversão, a reversão para a própria pessoa; o recalque; e a sublimação.
As pulsões ou de autoconservação estão a serviço do desenvolvimento psíquico pelo princípio de realidade.
A pulsão de morte é a tendência à agressão, caráter demoníaco, tendência destrutiva e autodestrutyiva, com a finalidade de reconduzir o que está vivo ao estado inorgânico. Ela se confronta com Eros – as pulsões de vida.

PRINCÍPIO DO PRAZER – É um dos princípios que regem o funcionamento psíquico, com o objetivo de proporcionar prazer e evitar o desprazer, sem entraves nem limites.

PRINCÍPIO DE REALIDADE – É um dos princípios que regem o funcionamento psíquico, com o objetivo de modificar o prazer, impondo-lhe as restrições necessárias à adaptação à realidade externa.

RECALQUE – O recalque para psicanálise designa o processo que visa a manter no inconsciente todas as ideias e representações ligadas às pulsões e cuja realização, produtora de prazwer, afetaria o equilíbrio do funcionamento psicológico do individuo, transformando-se em fonte de desprazer. Freud, que modificou diversas vezes sua definição e seu campo de ação, considera que o recalque é constitutivo do núcleo original do inconsciente.
Na segunda tópica, o recalque é ligado à parte inconsciente do eu. O recalcado funde-se com o isso, só se separando pelas resistências do recalque.

CENSURA – É a instância psíquica que proíbe que emerja na consciência um desejo de natureza inconsciente e o faz aparecer sob forma travestida. É identificada com o supereu, a instância que funciona como censor do eu.

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sábado, 18 de abril de 2015

A BIOGRAFIA DE FREUD, PETER GAY


FREUD – O livro Freud: uma vida para o nosso tempo, de Peter Gay, trata de temas como os fundamentos (12856-1905), uma ânsia de conhecimento, matéria para lembranças, a teoria em formação, histéricos, autoanálise, psicanálise, o segredo dos sonhos, uma psicologia para psicólogos, um mapa para a sexualidade, elaborações: esboço de um pioneiro preparado para o combate, prazeres dos sentidos, os estrangeiros, política psicanalítica, Jung: o príncipe herdeiro, interlúdio americano, Jung: o inimigo, terapia e técnica, duas lições clássicas, em causa própria: a política do Homem dos Lobos, um manual para técnicos, questões de gosto, fundações da sociedade, mapeando a mente, revisões, agressões, coisas abrangentes e importantes, paz inquieta, morte: experiência e teoria, Eros e o ego: seus inimigos, a morte contra a vida, insinuações de mortalidade, o preço da popularidade, vitalidade, luzes trêmulas em continentes negros, dilemas de médico, a mulher, o continente negro, a natureza humana em atividade, morrer em liberdade, contra as ilusões, civilização: o transe humano, os abomináveis americanos, morrer em liberdade, a política da catástrofe, o desafio como identidade, a morte de um estoico, entre outros assuntos.

REFERÊNCIA:
GAY, Peter. Freud: uma vida para o nosso tempo. São Paulo: Companhia das Letras, 1989.


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domingo, 15 de março de 2015

PRIMEIRAS PUBLICAÇÕES PSICANALITICAS


PRIMEIRAS PUBLICAÇÕES PSICANALITICAS – O livro Primeiras publicações psicanalíticas (1893-1899), de Sigmund Freud, aborda temas como Charcot, mecanismo psíquico dos fenômenos histéricos, as neuropsicoses de defesa, obsessões e fobias: seu mecanismo psíquico e sua etiologia, sobre os critérios para destacar da neurastenia uma síndrome particular intitulada neurose de angústia, uma réplica às criticas do artigo sobre neurose de angustia, hereditariedade e a etiologia das neuroses, novos comentários sobre as neuropsicoses de defesa, etiologia da histeria, sinopses dos escritos científicos, a sexualidade na etiologia das neuroses e o mecanismo psíquico do esquecimento.

PSICANÁLISE – Termo criado por Freud para nomear um método particular de psicoterapia ou tratamento pela fala, proveniente do processo catártico (catarse) de Josef Breuer e pautado na exploração do inconsciente, com a ajuda da associação livre, por parte do paciente, e da interpretação, por parte do psicanalista. Trata-se do tratamento conduzido de acordo com esse método, sendo a disciplina que abrange um método terapêutico, uma organização clinica, uma técnica psicanalítica, um sistema de pensamento e uma modalidade de transmissão do saber (analise didática, supervisão) que se apoia na transferência e permite formar praticantes do inconsciente. É uma escola de pensamento que engloba todas as correntes do freudismo.

CHARCOT – O médico e neurologista francês Jean Martin Charcot (1825-1893) mereceu de Freud especial consideração, tendo em vista que seu nome é inseparável da história da histeria, da hipnose e das origens da psicanalise. Além disse, pela atenção dispensada às mulheres do povo dedicada pelo médico, levando-o à gloria. Charcot era rival de Hyppolyte Bernheim que era o pioneiro da noção moderna de psicoterapia e demonstrou que a hipnose era um estado de sugestionabilidade provocado pela sugestão. Enquanto Charcot assimilava a hipnose como um estado patológico e se servia dela não como meio terapêutico, mas para provocar crises convulsivas e dar um estatuto de neurose, para Bernheim a hipnose era apenas uma questão de sugestão verbal, uma clinica de palavra substituía a clínica do olhar. Dessa forma, Charcot tornou-se representante da primeira psiquiatria dinâmica, inaugurando um modo de classificação inspirado no olhar anátomo-clínico de Claude Bernard, distinguindo a crise histérica da crise epitética e permitindo ao doente histérico escapar da acusação de simulação. Enfim, substituiu a antiga definição de histeria, para adoção do moderno conceito de neurose. Para ele o ataque histérico possui quatro fases: a fase epileptoide, quando o doente se contraía em uma bola e dava uma volta completa em torno de si mesmo; a fase de clownismo, com seu movimento em arco de círculo; a fase passional, com seus êxtases; e o período terminal, com suas crises de contratura generalizada. Acrescentou a variedade demoníaca da história, aquela em que a Inquisição via os sinais da presença do diabo no útero das mulheres. Freud, por sua vez, destruiu simultaneamente as teses de Bernheim e de Charcot. De Charcot ele tomou uma nova conceitualização da histeia e de Bernheim o princípio de uma terapia pela palavra.

METÓDO CATÁRTICO – O médico austríaco Josef Breuer (1842-1925) desempenhou papel considerável na vida de Sigmund Freud, entre 1882 e 1895. Ele começou a trabalhar em um laboratório de fisiologia tratando do problema da respiração. Tornou-se célebre em 1868 por um estudo sobre o papel do nervo pneumogástrico na regulação da respiração, estudou depois os canais semicirculares do ouvido interno. Foi em 1870 que ele passou da fisiologia para a psicologia e se interessou pela hipnose, experimentando em sua paciente Bertha Papperheim. Foi a partir daí que criou o método catártico. A catarse é uma palavra grega utilizada por Aristóteles para designar o processo de purgação ou eliminação das paixões que se produz no espectador quando, no teatro, ele assiste à representação de uma tragédia. O termo foi retomado por Freud e Breuer que, nos estudos sobre a histeria, chamam de método catártico o procedimento terapêutico pelo qual um sujeito consegue eliminar seus afetos patogênicos e então ab-reagi-los, revivendo os acontecimentos a que eles estão ligados. A ab-reação é um termo introduzido por ambos, em 1893, para definir um processo de descarga emocional que, liberando o afeto ligado à lembrança de um trauma, anula seus efeitos patogênicos. Esse estudo se direcionava para o mecanismo psíquico atuante nos fenômenos histéricos. O procedimento consiste em conseguir, tomando como ponto de partida as formas de que os sintomas se revestem, identificar o acontecimento que, a primeiro e amiúde num passado distante, provocou o fenômeno histérico. O estabelecimento dessa gênese esbarra em diversos obstáculos oriundos do paciente, aos quais Freud posteriormente chamaria de resistências, e que somente o recurso à hipnose permite superar. Na maioria das vezes, o sujeito afetado por um acontecimento reage a ele, voluntariamente ou não,  de modo reflexo: assim, o afeto ligado ao acontecimento é evacuado, por menos que essa reação seja suficientemente intensa. É importante que o ato possa ser substituído pela linguagem, pois, para eles, somente as palavras constituem o reflexo adequado. O emprego do termo psico-análise introduzido posteriormente por Freud não significa o desaparecimento do termo ab-reação, pelas razões de seja qual for o método, a análise continua sendo um lugar de fortes reações emocionais e, ao mesmo tempo, a análise recorre à rememoração e a repetição como formas paralelas de ab-reação.

PIERRE JANET – O medico e psicólogo francês Pierre Janer ((1859-1947) foi o teórico do automatismo psicológico e fundador da corrente da analise psicologia. Criador do método de psicoterapia, ao qual deu o nome de análise psicológica, baseada em três regras fundamentais: exame do doente face a face e sem testemunhas, anotação rigorosa das palavras pronunciadas (ou método da caneta), exploração dos antecedentes e dos tratamentos aos quais o doente fora submetido. Fundamentava sua análise na investigação consciente e não na escuta de um discurso inconsciente, adotando a nomenclatura de subconsciente. Este rejeitava cruamente os trabalhos de Freud, acusando-o, juntamente com Breuer de plagiários e que faziam a psicanalise passar por uma obscenidade vienense. É inegável a influencia de Janet no trabalho de Freud e na construção da psicanálise.

HISTERIA – Derivada da palavra grega hysteria (matriz, útero), a histeria é uma neurose caracterizada por quadros clínicos variados. Sua originalidade reside no fato de que os conflitos psíquicos inconscientes se exprimem de maneira teatral e sob a forma de simbolizações, através de sintomas corporais paroxísticos – ataques ou convulsões de aparência epiléptica – ou duradouros (paralisias, contratura, cegueira). As duas principais formas de histeria teorizadas por Freud foram a histeria de angustia, cujo sintoma central é a fobia, e a histeria de conversão, onde se exprimem através do corpo representações sexuais recalcadas. A isso se acrescentam duas outras formas freudianas de histeria: a histeria de defesa, que se exerce contra os afetos desprazerosos, e a histeria de retenção, onde os afetos não conseguem se exprimir pela ab-reação. A expressão histeria hipnoide pertence ao vocabulário de Freud e Breuer no período de 1894-1895. Nos Estudos sobre a histeria, de 1895, a histeria permanece como a doença princeps e proteiforme que possibilitou não apenas a existência de uma clinica freudiana, mas também o nascimento de um novo olhar sobre a feminilidade. A noção remete aos sofrimentos psíquicos das burguesas ricas da sociedade vienense, quanto à miséria mental das loucas do povo. Credita-se a Anton Mesmer ter operado em meados do sec. XVIII a passagem de uma concepção demoníaca da histeria e da loucura, para uma concepção científica. Freud entre 1888 e 1893, forjou um novo conceito de histeria, retomando de Charcot a ideia da origem traumática e elaborou a teoria da sedução afirmando que o trauma tinha causas sexuais, sublinhando que a histeria era fruto de um abuso sexual realmente vivido pelo sujeito na infância. Foi quando apresentou a noção de fantasia e retirar da sexologia a noção de libido. Nos Estudos sobre a histeria, Freud propôs nova apreensão do inconsciente com conceitos de recalcamento, ab-reação, defesa, resistência e conversão, graças a qual tornou-se possível compreender como uma energia libidinal se transformava numa inervação somática, numa somatização dotada de uma significação simbólica. A partir da Interpretação dos Sonhos, Freud colocará o conflito psíquico como principal causa da histeria, destacando as fantasias e não as reminiscências. Defendia que ao lado de uma realidade material existia uma realidade psíquica igualmente importante em termos da historia do sujeito. Do mesmo modo, a conversão devia ser encarada como modo de realização do desejo: um desejo sempre insatisfeito. Com a teorização da sexualidade infantil, Freud identificou o conflito nuclear da neurose histérica (a impossibilidade de o sujeito liquidar o complexo de Édipo e evitar a angustia da castração que o leva a rejeitar a sexualidade).

FOBIAS – Termo derivado do grego phobos e utilizado na língua francesa como sufixo, para designar o pavor de um sujeito em relação a um objeto, um ser vivo ou uma situação. Em psicanálise, a fobia é um sintoma, e não uma neurose, donde a utilização da expressão histeria de angustia em lugar da palavra fobia. A histeria de angustia, para Freud, é uma neurose de tipo histérico, que converte uma angustia num terror imotivado, frente a um objeto, um ser vivo ou uma situação que não apresentam em si nenhum perigo real. Essa expressão foi adotada por Freud por permitir situar a sexualidade no centro do sintoma fóbico, constatando que este sintoma estava presente em toda sorte de distúrbios neuróticos ou psicóticos, porém, mais particularmente, na neurose obsessiva e na neurose de angustia, sendo uma conversão da angustia em temor, em pacientes que praticavam a continência e se mostravam fanáticos com a limpeza, porque tinham horror às coisas da sexualidade. Depois, na análise do Pequeno Hans, em 1909, Freud constatou que existia pelo menos uma neurose em que o sintoma fóbico era central, designando-o de histeria de angustia. Nesses casos, a libido não é convertida, mas liberada sob a forma de angustia.

NEUROSES – Termo empregado por Freud com o sentido de designação de uma doença nervosa cujos sintomas simbolizam um conflito psíquico recalcado, de origem infantil. Com o desenvolvimento da psicanalise, o conceito evoluiu, passando a ter uma estrutura tripartite, ao lado da psicose e da perversão. Assim, a neurose é classificada como registro da neurose a histeria e a neurose obsessiva, às quais é preciso acrescentar a neurose atual, que abrange a neurose de angustia e a neurastenia, e a psiconeurose, que abarca a neurose de transferência e a neurose narcísica. A neurose obsessiva é uma afecção autônoma e independente.

LEMBRANÇAS ENCOBRIDORAS – Expressão composta e empregada por Freud para designar uma lembrança infantil insignificante que, por deslocamento, passa a mascarar uma outra lembrança recalcada ou não guardada. O deslocamento compreende o processo psíquico inconsciente, teorizado por Freud, por meio de um deslizamento associativo, transforma elementos primordiais de um conteúdo latente em detalhes secundários de um conteúdo manifesto. Entende, pois, tratar-se de alguma coisa, um quantum de energia, que é passível de aumento, diminuição, deslocamento e descarga, e que se espalha pelos traços mnêmicos das representações mais ou menos como uma carga elétrica sobre a superfície dos corpos. O processo de deslocamento e as lembranças encobridoras explicam as razões das escolhas efetuadas pela memoria entre os diversos elementos de uma experiência vivida. Duas forças psíquicas entram em confronto, uma trabalhando na memorização dos acontecimentos importantes, outra sendo uma resistência que se opõe a esta. O conflito termina num compromisso, por uma operação responsável pela existência das lembranças infantis que se referem a coisas indiferentes ou secundárias. Assim, o deslocamento consiste numa operação de substituição, que incide sobre impressões importantes cuja memorização esbarrou numa resistência, e cuja existência será estabelecida pela análise. Na Análise dos Sonhos, o deslocamento e a condensação constituem as duas grandes operações que se deve, essencialmente, a forma dos sonhos.

POSTULADOS DO ANALÍTICO E PSICANÁLISE HOJE – Os princípios do ato psicanalíticos estão assentados nos seguintes postulados: uma prática da fala na condição de dois parceiros: analista e analisado; a inexistência de um tratamento standard, regido pelo inconsciente e pela linguagem; duração de tratamento variável; e a formação do analista não pode ser regida pela universidade.

A psicanalise hoje se assenta no princípio freudiano de que não existe organização social perfeita, direcionando-se por isso para os novos problemas e novas soluções, com a ideia de acompanhar o tempo, sua evolução se estrutura além do Édipo, o analisando sendo o responsável por sua existência, na elaboração dos seus conflitos e diminuição dos seus sofrimentos com oferecimento de uma escuta privilegiada.
Conforme Eizirik, Aguiar e Schstatsky (2005), a psicanálise e a psicoterapia do analítico constituem o tratamento de escolha para as fobias, permitindo os esclarecimentos dos conflitos e dos dispositivos básicos utilizados pelas fobias, em especial o mecanismo de deslocamento a objetos e situações externas. O estabelecimento pleno do dispositivo analítico clássico supõe a alta frequência de sessões, associação livre, atenção flutuante, uso do divã, emprego predominante da interpretação de transferência, analise das resistências, entre outros elementos. Fundamenta-se nos postulados da teoria psicanalítica e implementada tecnicamente sobre as bases das condições possíveis a determinada situação. Trata-se de um modo particular de tratamento do desequilibro mental e, ao mesmo tempo, uma teoria psicologia que se ocupa dos processos mentais inconscientes, tornando-se, com isso, uma teoria da estrutura e funcionamento da mente humana, utilizando-se do método de analise dos motivos do comportamento. é um método terapêutico de doenças de natureza psicológica supostamente sem motivação orgânica transformada em uma doutrina filosófica. Originada a partir da prática clínica de Breuer e Freud, considerando a estrutura tripartite da mente, suas funções e correspondentes tipos de personalidade, a teoria do inconsciente e o método terapêutico da catarse. Os postulados da teoria são numerosos, cabendo nomear a importância do instinto sexual,  a estrutura tripartite da mente (Id, Ego e SuperEgo), o inconsciente, os atos falhos ou sintomáticos, motivação, fases do desenvolvimento sexual (oral, anal, genital ou fálica), tipos de personalidade, complexo de Édipo e Electra, narcisismo, mecanismo de defesa,  repressão, projeção, regressão, substituição, sublimação, transferência, perversão, os sonhos e seus conteúdos manifesto e latente, entre outros. A análise psicanalítica é realizada por meio de um método investigativo denominado de associação livre, evidenciando o significado inconsciente das palavras, ações, sonhos, fantasias e delírio do sujeito, especificado pela interpretação controlada da resistência, da transferência e do desejo, sistematizados para investigações e tratamento.
A psicanálise na atualidade, segundo Bastos (2006), Falbo (2007) e Leguil (2012), não está desatrelada ao seu tempo, pela definição do homem e da orientação ética da psicanálise, questionando-se sobre a proposição de um declínio da linguagem favorecendo o entendimento fora do sentido na progressão do ensino lacaniano, propondo-se, ainda, a revisão das abordagens da linguagem e do real por meio da retomada do diálogo com a linguística, além da introdução lacaniana de alingua e a sua correlação com a linguagem pertinente para o tratamento psicanalítico, sobretudo no autismo e nas psicoses. As discussões sobre a psicanalise aplicada pela criação da clínica ampliada em saúde mental, como alternativa aos impasses que a transferência tem imposto nos pacientes psicóticos, além da observância da particularidade do trágico contemporâneo que revigora as ideias de Lacan.

REFERÊNCIAS
BASTOS, Angélica (Org.). Psicanalisar hoje. Rio de Janeiro: Contra-Capa, 2006.
FALBO, Giaselle. A atualidade da psicanálise. Ágora, Rio de Janeiro, vol. 10, nº 2, jul/dez, 2007.
LEGUIL, Clotilde. Uma visão ultrapassada da psicanálise Para responder ao Nouvel Observateur do dia 19 de abril de 2012. Sociedade de Psicanalise da Cidade do Rio de Janeiro, 2012.
EIZIRIK, Claudio; AGUIAR, Rogerio; SCHESTATSKY, Sidnei. Psicoterapia de Orientação Analítica: Fundamentos Teóricos e Clínicos. Porto Alegre: Artmed, 2005.
FREUD, Sigmund. Primeiras publicações psicanalíticas (1893-1899). Rio de Janeiro: Imago, 1976.
ROUDINESCO, Elisabeth; PLON, Michel. Dicionário de psicanálise. Rio de Janeiro: Zahar, 1998.


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quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

DUAS HISTÓRIAS CLÍNICAS, DE SIGMUND FREUD


[...] Minha impressão é de que o quadro da vida sexual de uma criança apresentado nessa observação do pequeno Hans está muito de acordo com o relato que forneci (baseando meus pontos de vista em exames psicanalíticos de adultos) nos meus Três Ensaios. Mas antes de entrar nos detalhes dessa concordância, devo tratar de duas objeções que serão levantadas contra o fato de eu fazer uso da presente análise para esse fim. A primeira objeção é quanto ao fato de que Hans não era uma criança normal, mas (como os eventos - a própria doença, de fato - mostraram) tinha uma predisposição para a neurose, e era um jovem “degenerado”; seria ilegítimo, portanto, aplicar-se a outras crianças normais conclusões que talvez pudessem ser verdadeiras em relação a ele. Devo adiar a consideração dessa objeção, de vez que ela só limita o valor da observação, e não o anula completamente. De acordo com a segunda e menos comprometedora objeção, uma análise de uma criança conduzida por seu pai, que foi instilado ao trabalho com meus pontos de vista teóricos e infectado com meus preconceitos, deve ser inteiramente desprovida de qualquer valor objetivo. Uma criança, dirão, é necessariamente muito sugestionável, e muito mais por seu próprio pai do que talvez por qualquer outra pessoa; ela permitirá que qualquer coisa lhe seja forçada, por causa da gratidão a seu pai por lhe dar tanta atenção; nenhuma das suas afirmações pode ter qualquer valor de evidência, e tudo o que ela produz sob a forma de associações, fantasias e sonhos tomará, naturalmente, a direção para a qual está sendo pressionada por todos os meios possíveis. Mais uma vez, em suma, a coisa toda é simplesmente `sugestão’ - a única diferença é que, no caso de uma criança, ela pode ser desmascarada muito mais facilmente do que no caso de um adulto. Coisa singular. Lembro-me, quando comecei a me intrometer no conflito de opiniões científicas há vinte e dois anos atrás, de com que zombaria a geração mais velha de neurologistas e psiquiatras dessa época recebeu as afirmações sobre a sugestão e seus efeitos. Desde então a situação mudou fundamentalmente. A aversão original converteu-se numa aceitação por demais pronta; e isso aconteceu não só como consequência da impressão que o trabalho de Liébeault e Bernheim e de seus alunos não podia deixar de criar no curso dessas duas décadas, mas também porque desde então se descobriu que grande economia de pensamento pode ser feita com o uso da chamada `sugestão’. Ninguém sabe e ninguém se importa com o que seja sugestão, de onde ela vem, ou quando surge - basta que tudo de estranho na região da psicologia seja rotulado de `sugestão’. Não compartilho do ponto de vista, que está em voga atualmente, de que as afirmações feitas pelas crianças são invariavelmente arbitrárias e indignas de confiança. O arbitrário não tem existência na vida mental. A não-confiabilidade das afirmações das crianças é devida à predominância da sua imaginação, exatamente como a não-confiabilidade das afirmações das pessoas crescidas é devida à predominância dos seus preconceitos. Quanto ao resto, mesmo as crianças não mentem sem um motivo, e no todo são mais inclinadas para um amor da verdade do que os mais velhos. Se fôssemos rejeitar a raiz e os ramos das declarações do pequeno Hans certamente deveríamos estar-lhe fazendo uma grave injustiça. Ao contrário, podemos distinguir claramente as ocasiões em que ele estava falsificando os fatos ou guardando-os sob a força compelidora de uma resistência, as ocasiões em que, estando indeciso, concordava com seu pai (de modo que aquilo que ele dissesse não fosse tomado como evidência), e as ocasiões em que, livre de qualquer pressão, ele explodia numa torrente de informação sobre o que estava realmente acontecendo dentro dele e sobre coisas que até então ninguém sabia, a não ser ele mesmo. As declarações feitas por adultos não oferecem maior certeza. É um fato lamentável que nenhum relatório de uma psicanálise possa reproduzir as impressões recebidas pelo analista enquanto ele a conduz, e que um sentido final de convicção nunca possa ser obtido pela leitura sobre ela, mas somente experimentando-a diretamente. Contudo, essa incapacidade aplica-se em igual grau a análises de adultos. O pequeno Hans é descrito por seus pais como uma criança alegre, franca, e assim ele deve ter sido, considerando-se a educação dada por seus pais, que consistia essencialmente na omissão dos nossos costumeiros pecados educacionais. Enquanto podia levar avante suas pesquisas num estado de feliz naïvété, sem nenhuma suspeita dos conflitos que estavam para surgir a partir destas, ele não escondeu nada; e as observações feitas durante o período anterior à fobia não admitem dúvida ou reserva. Foi com a eclosão da doença e durante a análise que começaram a aparecer as discrepâncias entre o que ele dizia e o que ele pensava; isso acontecia em parte porque o material inconsciente, que ele era incapaz de controlar, de repente se estava forçando sobre ele, e em parte porque o conteúdo de seus pensamentos provocava reservas em relação às suas relações com seus pais. Minha opinião imparcial é que essas dificuldades não resultaram maiores do que em muitas análises de adultos. É verdade que durante a análise teve que ser contada a Hans muita coisa que ele mesmo não podia dizer, ele teve de ser apresentado a pensamentos que até então ele não tinha mostrado sinais de possuir, e sua atenção teve de ser voltada para a direção da qual seu pai estava esperando que surgisse algo. Isso diminui o valor de evidência da análise, mas o processo é o mesmo em todos os casos. Pois uma psicanálise não é uma investigação científica imparcial, mas uma medida terapêutica. Sua essência não é provar nada, mas simplesmente alterar alguma coisa. Em uma psicanálise o médico sempre dá a seu paciente (às vezes em maior e às vezes em menor escala) as ideias conscientes antecipadas, com a ajuda das quais ele se coloca em posição de reconhecer e de compreender o material inconsciente. Há alguns pacientes que necessitam mais de tal assistência e alguns que necessitam menos, mas não há nenhum que passe sem alguma assistência. Leves distúrbios podem, às vezes, ser levados a um fim pelos esforços não auxiliados do sujeito, mas nunca uma neurose - uma coisa que se colocou contra o ego como um elemento estranho a ele. Para obter o melhor de tal elemento, outra pessoa precisa ser trazida para dentro, e na medida em que essa pessoa puder auxiliar, a neurose será curável. Se está na própria natureza de qualquer neurose afastar-se da `outra pessoa’ - e isso parece ser uma das características dos estados agrupados sob o nome de demência precoce -, então, por esta razão, tal estado será incurável por quaisquer esforços de nossa parte. É verdade que uma criança, devido ao pequeno desenvolvimento dos seus sistemas intelectuais, requer uma assistência especialmente enérgica. Mas, afinal, a informação que o médico dá ao seu paciente deriva, por sua vez, de experiência analítica; e, de fato, isso é suficientemente convincente se, à custa dessa intervenção do médico, ficamos habilitados para descobrir a estrutura do material patogênico e, simultaneamente, para dissipá-lo. Contudo, mesmo durante a análise, o pequeno paciente deu sinal de independência suficiente para colocá-lo acima da acusação de `sugestão’. Como todas as outras crianças, ele aplicava suas teorias sexuais infantis ao material à sua frente, sem ter recebido qualquer encorajamento para agir assim. Essas teorias estão extremamente distantes da mente adulta. Na verdade, nesse caso eu realmente deixei de avisar ao pai de Hans que o menino seria impelido a aproximar-se do tema do parto por meio do complexo excretório. Essa negligência da minha parte, apesar de ter levado a uma fase obscura na análise, foi, todavia, o meio de produzir uma boa parte de evidência da legitimidade e da independência dos processos mentais de Hans. Ele se tornou de repente, ocupado com `lumf‘: sem que seu pai, que se supunha estar praticando sugestão sobre ele, tivesse a menor ideia de como ele tinha chegado a esse tema, ou o que iria sair daí. Seu pai também não pode ser sobrecarregado com nenhuma responsabilidade pela produção das duas fantasias do bombeiro, que surgiram com o `complexo de castração’ de Hans, adquirido muito cedo. É preciso confessar aqui que, fora o interesse teórico, ocultei inteiramente do pai de Hans minha expectativa de que acabaria havendo um pouco de tal conexão, de modo a não interferir no valor de uma parte de evidência que não vem muitas vezes à compreensão da pessoa.
[...] O assunto contido nas páginas a seguir será de duas categorias. Primeiramente, fornecerei alguns extratos fragmentários oriundos da história de um caso de neurose obsessiva. Esse caso, julgado por sua extensão, pelos danos de suas consequências e pelo próprio ponto de vista do paciente a seu respeito, merece ser classificado como um caso relativamente sério. O tratamento, que durou cerca de um ano, acarretou o restabelecimento completo da personalidade do paciente, bem com a extinção de suas inibições. Em segundo lugar, partindo-se desse caso e levando-se em consideração outros casos que analisei anteriormente, farei algumas assertivas de caráter aforístico, fora de conexão, sobre a gênese e o mecanismo mais estritamente psicológico dos processos obsessivos; assim, espero desenvolver as minhas primeiras observações sobre o assunto, publicadas em 1896.
[...] Aquilo que se descreve oficialmente como uma `ideia obsessiva’ mostra, por conseguinte, em sua deformação a partir de seu teor original; vestígios da luta defensiva primária. Sua deformação possibilita que esta persista, de vez que o pensamento consciente é, pois, impelido a compreendê-la mal, como se fosse um sonho; isso porque também os sonhos são um produto da conciliação e da deformação, e são mal compreendidos pelo pensamento desperto.
[....] A predileção dos neuróticos obsessivos pela incerteza e pela dúvida leva-os a orientar seus pensamentos de preferência para aqueles temas perante os quais toda a humanidade está incerta e nossos conhecimentos e julgamentos necessariamente expostos a dúvida. Os principais temas dessa natureza são paternidade, duração da vida, vida após a morte e memória - na qual todos nós costumamos acreditar, sem possuirmos a menor garantia de sua fidedignidade. Nas neuroses obsessivas, a incerteza da memória é utilizada em toda a sua extensão como auxiliar na formação de sintomas; e conheceremos diretamente o papel desempenhado no conteúdo real dos pensamentos do paciente pelas questões sobre a duração da vida e a vida depois da morte. Contudo, como uma transição mais adequada, considerarei em primeiro lugar um vestígio particular de superstição em nosso paciente, ao qual já aludi, e que, sem dúvida, terá confundido a mais de um de meus leitores.

DUAS HISTÓRIAS CLÍNICAS – A obra Duas histórias clínicas – o pequeno Hans e o homem dos ratos, de Sigmund Freud, trata acerca da análise de uma fobia em um  menino de cinco anos, abordando o caso clinico e análise, discussão, pós-escrito, e notas sobre um caso de neurose obsessiva, abordando extrato do caso clínico, o inicio do tratamento, sexualidade infantil, o grande medo obsessivo, iniciação na natureza do tratamento, algumas ideias obsessivas e sua explicação, a causa precipitadora da doença, o complexo paterno e a solução da ideia do rato, considerações teóricas, algumas características das estruturas obsessivas, algumas peculiaridades psicológicas dos neuróticos obsessivos, sua atitude perante a realidade, a superstição e a morte, a vida instintual dos neuróticos obsessivos e as origens da compulsão e da dúvida, addendum: registro original do caso e um apêndice com alguns escritos de Freud que tratam da ansiedade, das fobias em crianças e de neurose obsessiva.

REFERÊNCIA
FREUD, Sigmund. Duas histórias clínicas – o pequeno Hans e o homem dos ratos. Rio de Janeiro: Imago, 1980.

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quarta-feira, 7 de janeiro de 2015

O CASO SCHREBER, DE SIGMUND FREUD


[...] a transferência, no tratamento analítico, invariavelmente nos aparece, desde o início, como a arma mais forte da resistência, e podemos concluir que a intensidade e persistência da transferência constituem efeito e expressão da resistência. Ocupamo-nos do mecanismo da transferência, é verdade, quando o remontamos ao estado de prontidão da libido, que conservou imagos infantis, mas o papel que a transferência desempenha no tratamento só pode ser explicado se entrarmos na consideração de suas relações com as resistências.
[...] desejávamos sugerir que não se deve deixar desencorajar pela natureza amiúde repulsivamente suja e indecente deste material popular de nele buscar confirmação valiosa das opiniões psicanalíticas. Assim, nesta ocasião, pudemos estabelecer o fato de que o folclore interpreta os símbolos oníricos da mesma maneira que a psicanálise, e que, ao contrário da altamente proclamada opinião popular, deriva um grupo de sonhos de necessidades e desejos que se tornaram imediatos. Por outro lado, gostaríamos de expressar a opinião de que é cometer uma injustiça com o povo comum supor que emprega esta forma de entretenimento simplesmente para satisfazer os desejos mais grosseiros. Parece antes que por trás destas feias fachadas se acham ocultas reações mentais a impressões da vida que devem ser tomadas a sério, que até mesmo entristecem - reações a que o povo comum está pronto a entregar-se, desde que se façam acompanhar por uma produção de prazer grosseiro.
[...] Na psicologia que se baseia na psicanálise, acostumamo-nos a tomar como ponto de partida os processos mentais inconscientes, com cujas peculiaridades nos tornamos familiarizados através da análise. Consideramos que são os processos mais antigos, primários, resíduos de uma fase de desenvolvimento em que eram o único tipo de processo mental. O propósito dominante obedecido por estes processos primários é fácil de reconhecer; ele é descrito como o princípio de prazer-desprazer [Lust-Unlust], ou, mais sucintamente, princípio de prazer. Estes processos esforçam-se por alcançar prazer; a atividade psíquica afasta-se de qualquer evento que possa despertar desprazer. (Aqui, temos a repressão.) Nossos sonhos à noite e, quando acordados, nossa tendência a afastar-nos de impressões aflitivas são resquícios do predomínio deste princípio e provas do seu poder.
[...] Os pensamentos latentes do sonho não diferem em nenhum aspecto dos produtos de nossa atividade consciente habitual; merecem o nome de pensamentos pré-conscientes e, em verdade, podem ter sido conscientes em algum momento do estado de vigília. Entretanto, por entrarem em contato com as tendências inconscientes durante a noite, assimilaram-se a estas, degradaram-se, por assim dizer, à condição de pensamentos inconscientes, e ficaram sujeitos às leis pelas quais a atividade inconsciente é dirigida. E aqui temos a oportunidade de aprender o que não poderíamos ter adivinhado pela especulação, ou por outra fonte de informação empírica - que as leis da atividade inconsciente diferem amplamente daquelas da consciente. Inferimos pormenorizadamente quais são as peculiaridades do Inconsciente e podemos esperar aprender ainda mais sobre elas mediante investigação mais profunda dos processos da formação onírica.
[...] A inconsciência pareceu-nos, a princípio, apenas uma característica enigmática de um ato psíquico definido. Atualmente ela significa mais para nós. É sinal de que este ato partilha da natureza de determinada categoria psíquica, que conhecemos por outras características mais importantes, e que ele pertence a um sistema de atividade psíquica merecedor de nossa plena atenção. O valor índice do inconsciente ultrapassou de muito sua importância como propriedade. O sistema assinalado pelo fato de seus atos isolados serem inconscientes é chamado ‘O Inconsciente’, por falta de termo melhor e menos ambíguo. Em alemão, proponho denotar esse sistema pelas letras Ubw, abreviatura da palavra ‘Unbewusst‘. E este é o terceiro e mais significativo sentido que o termo ‘inconsciente’ adquiriu na psicanálise.
[...] O estado atual de nosso conhecimento leva-nos a concluir que o fator essencial na construção de sonhos é um desejo inconsciente - geralmente um desejo infantil, agora reprimido - que pode vir a se expressar nesse material somático ou psíquico (e também nos resíduos diurnos, portanto) e pode abastecer estes com uma força que os capacita a forçar seu caminho em direção à consciência, mesmo durante a suspensão do pensamento, à noite. O sonho é, em todos os casos, uma realização deste desejo inconsciente, seja o que for que possa conter mais - advertência, reflexão, admissão, ou qualquer outra parte do rico conteúdo do estado de vigília pré-consciente que continuou, sem ser tratado, noite adentro. É este desejo inconsciente que dá à elaboração onírica seu caráter peculiar, como revisão inconsciente do material pré-consciente. Um psicanalista pode caracterizar como sonhos apenas os produtos da elaboração onírica: apesar do fato de só se chegar aos pensamentos oníricos latentes a partir da interpretação do sonho, ele não pode considerá-los como parte deste, mas apenas como parte da reflexão pré-consciente. (A revisão secundária pela instância consciente é aqui considerada como parte da elaboração onírica. Mesmo que devêssemos separá-la, isto não envolveria nenhuma alteração em nossa concepção. Teríamos então de dizer: os sonhos, no sentido analítico, compreendem a elaboração onírica propriamente dita, juntamente com a revisão secundária de seus produtos.) A conclusão a ser tirada destas considerações é que não se pode colocar o caráter realizador de desejos dos sonhos no mesmo nível que seu caráter de advertência, admissão, tentativa de solução etc., sem negar o conceito de uma dimensão psíquica de profundidade, o que equivale a dizer, sem negar o ponto de vista da psicanálise.

O CASO SCHREBER – O livro O caso Schreber, artigos sobre técnica e outros trabalhos, de Sigmund Freud, trata acerca da história clínica, o estado de beatitude, os delírios, a tentativa de interpretação, os delírios de perseguição, substituição, sobre o mecanismo da paranoia, delírios de ciúme, erotomania, repressão, fixação, o fracasso da depressão e a paranoia, com um pós-escrito a respeito do caso. Em seguida traz artigos sobre a técnica abordando sobre o manejo da interpretação de sonhos na psicanálise, a dinâmica de transferência, recomendações aos médicos que exercem a psicanálise, sobre o início do tratamento, recordar, refletir e elaborar, observações sobre o amor transferencial, os sonhos no folclore, o simbolismo do pênis em sonhos que ocorrem no folclore, um sonho mau, simbolismo das fezes e ações oníricas relacionadas, ouro de sonho, cagou na sepultura, a luz da vida, um sonho vivido, sonho e realidade, a ascensão do camponês ao céu, estúpido, medo, o anel da felicidade, não adianta chorar sobre o leite derramado, sobre a psicanálise, formulações sobre os dois princípios do funcionamento mental, tipos de desencadeamento da neurose, contribuições a um debate sobre a masturbação, uma nota sobre o inconsciente na psicanálise, um sonho probatório, a ocorrência em sonhos do material oriundo dos contos de fada, o tema dos três escrínios, duas mentiras contadas por crianças, a disposição à neurose obsessiva, breves escritos e a significação das sequências de vogas.

REFERÊNCIA
FREUD, Sigmund. O caso Schreber, artigos sobre técnica e outros trabalhos. Rio de Janeiro: Imago, 1980.

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