PLURIVERSALIDADE - O conceito de pluriversalidade, segundo Ramose (2011), compreende o reconhecimento da constituição plural do mundo, considerando a existência de outras filosofias além das filosofias ocidentais, notadamente eurocêntricas. Neste tocante é conveniente observar que ao longo da história, diversos fatores contribuíram para o enaltecimento quase exclusivista do pensamento eurocêntrico, proporcionando o apagamento de uma diversidade de filosofias, sobretudo pela efetivação do processo colonizador e escravocrata.
Atualmente
as perspectivas decolonizadoras e pluriversais são, segundo Mignolo (2018), elas
próprias, dimensões relacionadas do declínio da ordem mundial ocidental
“monocêntrica”, na medida em que as perspectivas decolonizadoras envolvem uma série
de desafios epistemológicos, ontológicos e pragmáticos, enquanto as
pluriversais dão conta da expressão afirmativa da pluralidade de maneiras que
vão além dessa hegemonia.
Assim a
pluriversalidade, para Mignolo (2018) é, em si, uma prática decolonizadora,
pois a afirmação da pluralidade profunda torna impossíveis os modos de vida
hegemônicos e totalizantes impostos pelo colonialismo. Juntas, a decolonização
e a pluriversalidade formam um conjunto entrelaçado de práticas emancipatórias
que prometem aprofundar e diversificar o conhecimento sobre as organizações.
A
COLONIZAÇÃO - Conforme Nogueira (2014, p. 27): [...]
Encontramos o problema do conhecimento, da validade dos saberes e da produção
intelectual [...] a colonização implicou na desconstrução da estrutura social,
reduzindo os saberes dos povos colonizados à categoria de crenças ou
pseudossaberes sempre lidos a partir da perspectiva eurocêntrica. Essa
hegemonia, no caso da colonização do continente africano, passou a
desqualificar e invisibilizar os saberes tradicionais, proporcionando uma
completa desconsideração do pensamento filosófico desses povos [...] racismo
epistêmico [...].
A
colonização foi processo pelo qual se deu a pulverização do eurocentrismo. E conforme
Dussel (1993, p. 22): [...] Diante de cujo povo todo outro-povo “não tem
direito”. É a melhor definição não só de “eurocentrismo”, mas também da própria
sacralização do poder imperial do Norte e do Centro sobre o Sul, a Periferia, o
antigo mundo colonial e dependente. Creio que não são necessários comentários.
Os textos falam, em sua espantosa crueldade, de um cinismo sem medida, que se
transforma no próprio “desenvolvimento” da “razão” ilustrada (da Aufklärung)
[...]. Este é um dos objetos centrais do “mito da modernidade” que, de acordo
com Dussel (1993), trata, inclusive, sobre os rostos múltiplos do povo,
mostrando os vários modos de vida que foram criados pela comunicação deficiente
entre o centro e a periferia criando o outro como algo imprestável e na atualidade
ganhando novos contornos e sofisticados de vilipendiação.
Neste
sentido entende Grosfoguel (2008, p. 209) que: “Se a única tradição do
pensamento com tal capacidade de universalidade e acesso à verdade é ocidental,
então não há universalismo abstrato sem racismo epistêmico”.
DESMISTIFICAÇÃO
DA HISTÓRIA - O trabalho de desmistificação da história,
da memória e da raça, segundo Mbembe (2016) se processa no contexto da
decolonização global, envolvendo a análise crítica e o desmantelamento dos
mitos da branquitude eurocêntrica que historicamente moldaram as narrativas e
as estruturas de poder. Trata-se de um processo essencial para a promoção de um
futuro em que diversas tradições epistêmicas sejam reconhecidas e valorizadas,
permitindo que as sociedades se libertem dos legados do colonialismo e
trabalhem em prol de uma comunidade global mais equitativa (MBEMBE, 2021),
permitindo a percepção de complexidades históricas compartilhadas, contribuindo
para a compreensão coletiva da humanidade.
PLURIVERSALIDADE
DECOLONIAL – Assim, para Mignolo & Walsh (2018),
trata-se de um processo que se encontra em curso nos contextos em que predominam
a opressão e a violência. Uma perspectiva decolonial procede a um exame crítico
sobre as questões do imperialismo e do colonialismo nos fundamentos tanto linguísticos,
como heurísticos, axiológicos, ontológicos e epistemológicos da pesquisa, do
currículo e do ensino. Neste sentido, a pluriversalidade decolonial, no dizer
de Mignolo e Walsh (2018), é a capacidade das práticas e epistemologias locais
de iluminar, relacionar ou correlacionar com as existentes em outros lugares.
Com base
na revisão da literatura procedida, observa-se que os principais pilares do
pensamento pluriversal estão assentados na crítica ao eurocentrismo e à
colonialidade, questionando a "matriz colonial de poder" (descrita
por pensadores como Aníbal Quijano), que hierarquiza saberes, estigmatizando
conhecimentos indígenas, africanos, afro-brasileiros e asiáticos como
"folclore" ou "crença" em vez de filosofia. Outro pilar é a
plurirracionalidade reconhecendo que a razão não se expressa de uma única
maneira universal, mas de formas plurais, ligadas a diferentes cosmovisões,
línguas e relações com a natureza e o sagrado. Também o pilar da
descentralização dos marcos de origem, recuperando debates históricos sobre as
raízes da filosofia (como as conexões e influências africanas/egípcias e as
filosofias originárias das Américas), mostrando que o ato de filosofar é uma
capacidade humana universal, e não monopólio geopolítico da Europa. Além destes
pilares, ainda há o do diálogo intercultural e heterárquico, propondo uma
conexão horizontal entre diferentes tradições de pensamento — como a filosofia
Bantu-Congo, as epistemologias indígenas – com os pensamentos Yanomami e Krenak
-, e as filosofias africanas, onde nenhum saber subjuga o outro.
Há que se
considerar alguns temas fundamentais que permeiam as perspectivas decoloniais,
a exemplo do hibridismo, alteridade e afirmatividade. O hibridismo, conforme Bhabha
(1984, 1994), corresponde à inevitabilidade da mistura, adoção ou do mimetismo
cultural, por meio dos quais os significados e as práticas culturais tomam
forma através dos processos coloniais. Já a alteridade faz referência ao outro
que é central na relação concernente à identidade e às relações sociais. E esta,
por sua vez, está relacionada com a afirmatividade, que faz referência ao
projeto positivo de decolonização, como afirmação de múltiplos modos de ser. Assim
a decolonização se processa em desfazer a dominação, com o objetivo da
descoberta e desvendamento dos modos de vida marginalizados, para torná-los disponíveis
às possibilidades de multiplicidade e diversidade. Exemplo disso é o que propõe
Noguera (2011/2012), no tocante à filosofia afroperspectivista, como uma
expressão conceitual guarda-chuva, isto é, reúne diversas perspectivas e
olhares, significando neste caso: “a reunião de produções filosóficas
africanas, afrodiaspóricas e comprometidas com o combate ao racismo epistêmico”
(NOGUERA, 2011, p. 44). Em outras palavras, filosofia afroperspectivista é todo
exercício filosófico protagonizado por pessoas com pertencimentos marcados
principalmente pela afrodiáspora. (NOGUERA, 2012, p.65). Ou seja, não se trata
de dividir e divorciar os elementos, mas, compreendê-los de modo articulado,
policêntrico, dentro de um polidiálogo, uma efetiva pluriversalidade. Denegrir,
neste caso, é pluriversalizar as abordagens, revitalizando e regenerando as
redes de relacionamentos políticos, econômicos, etnicorraciais, de gênero,
exercícios de sexualidade, entre outras. Assim, denegrir indica um processo de
dissolução das modalidades de dominação e subalternização baseadas em critérios
etnicorraciais, geográficos, de gênero, na orientação sexual ou exercícios de
sexualidade, etc. Portanto, denegrir tem como alvo o abandono das disputas e
controles dos bens materiais e imateriais, visando uma cooperação e construção
compartilhada dos poderes. (NOGUERA, 2012, p.69). Ainda exemplificando: numa
pedagogia pluriversal cabem usos da etnomatemática, permitindo que uma aula de
geometria possa ser um ensaio coreográfico, isto é, desfazer os limites entre o
que seria da ordem cognitivo intelectual – matemática – e o que é da ordem
psicomotora – a dança, a educação física. A revitalização própria de denegrir a
educação pode desfazer limites, permitindo que corpo e alma possam ser
sinônimos. (NOGUERA,2012, p.72).
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