segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015

O OBJETIVISMO DE AYN RAND


A REVOLTA DE ATLAS – [...] Um ligeiro tremor na voz dele lhe deu uma súbita revelação de quanto o interesse e o pedido de Dagny tinham significado para ele e de que a decisão não tinha sido fácil.  – Kellogg, há alguma coisa que eu possa oferecer para você ficar? – Nada, Srta. Taggart. Nada neste mundo. Ele se voltou para deixar a sala. Pela primeira vez na vida ela sentiu-se perdida e derrotada. – Por quê? – perguntou ela, sem se dirigir a ninguém. Ele parou. Deu de ombros e sorriu. Era como se ele voltasse à vida, e aquele era o sorriso mais estranho que ela jamais vira: continha um contentamento interior e secreto, e desânimo, e infinita amargura. E ele disse: – Quem é John Galt?


A NASCENTE – [...] James Taggart estava sentado à mesa de trabalho. Parecia um cinquentão que tivesse chegado a tal idade diretamente da adolescência, sem passar pelo estágio intermediário da juventude. Tinha a boca pequena e petulante e alguns raros fios de cabelo se elevavam na fronte calva. Seu ar desleixado e sua má postura pareciam desafiar o corpo alto e esguio, cuja elegância, condizente com a de um aristocrata confiante, transformava-se na falta de jeito de um palerma. A pele do rosto era pálida e macia. Os olhos, mortiços e velados, em movimentos lentos e incessantes, deslizavam pelas coisas como num eterno ressentimento por elas existirem. Parecia obstinado e gasto. Tinha 39 a nos.



A VIRTUDE DO EGOISMO Num sentido popular, a palavra “egoísmo” é sinônimo de maldade: representa a imagem de um insensível e cruel assassino que passa por cima de pilhas de cadáveres para atingir os seus próprios fins, alguém que não se importa com qualquer ser humano e que tem como objetivo último a obtenção de gratificação pessoal com caprichos vãos num qualquer momento imediato. Todavia, a definição mais exata da palavra “egoísmo” dada pelo o dicionário é: preocupação com os nossos próprios interesses. Esta definição não encerra uma avaliação moral: não nos diz se a preocupação com os nossos próprios interesses é algo bom ou mau; nem nos diz o que de fato constitui os interesses do homem. Cabe à ética responder a estas questões. Como resposta, a ética do altruísmo criou a imagem do ser humano insensível, de forma a levar o homem a crer em dois princípios básicos: a) que, independentemente da sua natureza dos seus interesses, cuidar deles é algo mau e b) que a atividade do ser humano insensível é, de fato, o resultado do seu próprio interesse (ao qual o altruísmo nos impõe renunciar para o bem daqueles com quem convivemos).  Dando uma perspectiva da natureza do altruísmo, das suas consequências e da grandeza da corrupção moral a que dá origem, dou o exemplo do meu livro Atlas Shrugged – ou de qualquer cabeçalho da imprensa atual. O nosso foco de análise é as deficiências do altruísmo no domínio da teoria ética. Há duas questões morais que o altruísmo agrupa num único “pacote”: 1) O que são valores? 2) Quem deveria ser o beneficiário dos valores? O altruísmo substitui a segunda questão pela primeira: escapa à tarefa de definir um código de valores morais, deixando, assim, o homem sem qualquer orientação moral. O altruísmo defende que qualquer ação feita em benefício dos outros é boa e que qualquer ação feita em prol de interesses próprios é má. Deste modo, o beneficiário de uma ação é o único critério de valor moral – e desde que o beneficiário não seja o próprio agente da ação, tudo é aceitável. Sob todas as variantes da ética altruísta se pode avaliar a terrível imoralidade, a injustiça crônica, o grotesco valor dos dois pesos e duas medidas, os conflitos e contradições insolúveis que caracterizaram as relações e sociedades humanas ao longo da história. [...] A ética objetivista defende que o agente tem de ser sempre o beneficiário da sua ação e que o homem deve agir em função dos seus próprios interesses racionais. Porém, este direito resulta da sua natureza de homem e da função dos valores morais na vida humana. Por isso, é apenas aplicável num contexto de código de valores racional e objetivamente demonstrado e validado, o qual define e determina o verdadeiro interesse próprio do homem. Não é uma autorização para fazer “o que lhe apetece” nem se aplica à visão altruísta do insensível cruel e “egoísta” nem a qualquer outro homem motivado por emoções irracionais, sentimentos, vontades súbitas ou caprichos. Esta ideia é apresentada como um aviso contra o tipo de “egoístas nietzschianos”, que são efetivamente um produto da moral altruísta e representam o outro lado da moeda altruísta: aqueles que creem que, independentemente da sua natureza, qualquer ação é boa se dirigida ao benefício do próprio agente, tal como a satisfação de desejos irracionais – quer de si próprio quer de si próprio quer dos outros – não constitui critério de valor moral. A moralidade não é um concurso de caprichos


AYN RAND -  A escritora, dramaturga, roteirista e filósofa norte-americana Alisa Zinov'yevna Rosenbaum, ou apenas Ayn Rand (1905-1982), desenvolveu o sistema filosófico chamado de Objetivismo por meio das suas obras A Nascente e A Revolta de Atlas, nas quais dramatiza seu homem ideal, o produtor que vive por seu próprio esforço e não dá nem recebe o imerecido, que honra as conquistas e rejeita a inveja. Ela projetou uma escola de arte chamada “Realismo Romântico”, no qual os artistas românticos realistas iriam combinar um compromisso com a apresentação de cenas verossímeis estabelecidos em algo como o mundo real com os ideais de um novo romantismo, que desse forma às cenas, melodias e histórias para apresentar o caráter essencialmente heroico do homem. Em seus próprios romances a autora desenvolveu um estilo de “realismo tendencioso” que envolveu ricos personagens em torno de tramas centradas em princípios-chaves e ideias. Além disso, ela criou o objetivismo que é a filosofia do individualismo racional fundado com base de que não há nenhum objetivo moral maior do que atingir a felicidade. Essa filosofia politicamente defende o capitalismo laissez-faire, entendendo o capitalismo, um governo estritamente limitado a proteger o direito de cada um a vida, liberdade e propriedade proíbe que qualquer um inicie força contra outros. Os heróis do objetivismo são empreendedores que criam negócios, inventam tecnologias, criam arte e ideias, dependendo dos seus próprios talentos e das trocas com outras pessoas independentes para alcançar seus objetivos. É, portanto, otimista, sustenta que o universo é aberto para as conquistas humanas e felicidade e que cada pessoa tem consigo a habilidade de viver uma vida rica, realizada e independente. Para a autora, o Objetivismo é um sistema completo de pensamento que demarca posições em todos os principais campos da filosofia. É uma corrente que é contra todas as formas de relativismo metafísico ou idealismo e sustenta que é simplesmente absurdo falar de qualquer coisa “sobrenatural” – literalmente além ou acima da natureza. A ética objetivista reconstrói a moralidade a partir do zero e, por outro lado, foi feito para a era do capitalismo industrial, ensinando o que ficou claro com o enriquecimento do ocidente: que uma harmonia de interesses existe entre indivíduos racionais, de que o beneficio de um indivíduo não necessita advir por meio do sofrimento de outrem. Assim, sustenta que o propósito da moralidade é definir um código de valores de apoio a vida humana. E os valores do Objetivismo são os meios para a conquista de uma vida feliz. Eles incluem coisas como riqueza, amor, satisfação no trabalho, educação, inspiração artística e muito mais. A ética objetivista é um código que honra a realização e aconselha a celebração, não a inveja, pela grandeza. Ela honra a criatividade não só de artistas ou estudiosos, mas de produtores em cujos ombros a civilização descansa: industrialistas e engenheiros, investidores e inventores. Ela sustenta que qualquer trabalho é espiritual quando pensado e feito, não importa qual a escala de realização, do trabalhador da linha de produção ao chefe executivo da empresa, e do secretário mais desconhecido para a estrela de cinema mais famosa. Em suma, o objetivismo enfatiza as noções de individualismo. autossustentação e capitalismo, preconizando o individualismo filosófico e o liberalismo econômico. Essa filosofia possui uma base aristotélica, advogando que o ser humano é dotado de capacidade racional e deveria observar o mundo através do único meio possível de fazê-lo: a lógica. Este complexo filosófico é sustentando por cinco pilares: a metafísica como realidade objetiva; a epistemologia pela razão; a ética pelo autointeresse; a política pelo liberalismo e capitalismo; e a estética pelo juízo de valor metafísico.

REFERÊNCIAS
RAND, Ayn. A nascente. São Paulo: Arqueiro, 2013.
______. A virtude do egoísmo – a verdadeira ética do homem: o egoísmo racional. São Paulo: Ortiz, 1991.
______. A revolta de Atlas – 3 volumes. São Paulo: Arqueiro, 2010.

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domingo, 1 de fevereiro de 2015

AS OBRAS DE ABELARDO


LÓGICA PARA PRINCIPIANTESPara aqueles dentre nós que se iniciam no estudo da lógica digamos algumas palavras sobre as suas propriedades, e comecemos por tratar do gênero a que ela pertence, ou seja, a filosofia. Boécio não denomina qualquer ciência filosofia, mas só aquela que consiste no estudo das coisas mais elevadas. De fato, não damos o nome de filósofos a quaisquer estudiosos, mas apenas aos sábios cuja inteligência se aprofunda na consideração das questões mais sutis. Boécio distingue três espécies de filosofia, isto é, a especulativa, que investiga a natureza das coisas; a moral, que considera a questão da vida honesta; e a racional, denominada lógica pelos gregos e que trata da argumentação. Alguns autores, entretanto, separam a lógica da filosofia com afirmar que ela constitui mais um instrumento, de acordo com Boécio, do que uma parte da ciência filosófica, uma vez que todas as outras disciplinas dela se utilizam de alguma forma, quando usam os seus argumentos para fazerem as próprias demonstrações. Quer se trate de uma investigação sobre o mundo físico, quer de um assunto moral, os argumentos procedem da lógica. O próprio Boécio rebate essa opinião com afirmar que nada impede a lógica de ser, ao mesmo tempo, instrumento e parte da filosofia, tal como a mão é, ao mesmo tempo, instrumento e parte do corpo humano. Às vezes, a própria lógica parece ser instrumento de si mesma, quando demonstra com os seus argumentos uma questão pertencente à sua área, como, por exemplo, a seguinte: o homem é uma espécie do gênero animal. [...] Na redação de um tratado de lógica impõe-se necessariamente certa ordem no tratamento dos assuntos, pois, uma vez que as argumentações se compõem de proposições, e já que estas são formadas por termos, quem escreve uma obra completa de lógica precisa primeiramente tratar dos simples termos, depois, das proposições e, por fim, coroar o seu estudo com o exame das argumentações, tal como o fez o nosso príncipe Aristóteles, que escreveu as Categorias  sobre a doutrina dos termos, o Peri Hermeneias sobre as proposições, e os Tópicos e os Analíticos sobre as argumentações. Esta obra de Porfirio, conforme o esclarece a indicação do título, constitui uma introdução às Categorias de Aristóteles, mas, como o próprio autor demonstra posteriormente, ela é necessária para toda a arte da lógica. Passaremos a examinar agora, de modo breve e preciso, a intenção do autor, a matéria de que trata, o método seguido, a utilidade do estudo, e a parte da dialética à qual se subordina esta ciência.


A HISTÓRIA DAS MINHAS CALAMIDADES - [...] Caríssimo irmão em Cristo e íntimo companheiro de vida religiosa, esta é a história das minhas  calamidades, que venho sofrendo continuamente quase desde o berço. Penso que já é suficiente o que escrevi em vista da tua desolação e da injustiça que sofreste, para que julgues, como declarei no início de minha carta, que a tua provação é nula ou ínfima em comparação das minhas, e para que a suportes mais pacientemente, considerando-a pequena. E assim, encorajados por esses ensinamentos e por esses exemplos, suportemos mais tranquilamente estas provações quanto mais injustas elas são. Não duvidemos de que, se elas não servem para nosso mérito, pelo menos concorrem para a nossa purificação, e visto que todas as coisas ocorrem por disposição divina, que cada um dos fiéis se console com este pensamento de que a suprema bondade de Deus não permite jamais que nada aconteça desordenadamente, e que todas as coisas que se fazem de mal Ele próprio se encarrega de levar a um ótimo fim.

PEDRO ABELARDO – O teólogo e filósofo escolástico francês Pedro Abelardo ou Pierre Abélard (1079-1142) foi um dos maiores pensadores do século XII, ocupando posição de destaque pela formulação do conceitualismo em que não se filia nem ao idealismo platônico nem ao materialismo aristotélico. É autor da obra denominada Dialética, com inspiração pelo pensamento de Boécio, utilizada como manual escolar pela introdução da sua lógica nas disputas metafísicas e teológicas. A dialética para ele é o único caminho da verdade, desfazendo os preconceitos e encorajando o pensamento livre e identificando o real ao particular e considerando o universal como o sentidos das palavras, ao rejeitar o nominalismo, permitindo o esclarecimento dos conceitos de forma e emancipando a lógica da metafísica. Ele defendia a abstração dos universais, se opondo aos conceitos reinantes de vox (nominalismo) e res (realismo), o sermo, função lógica do espírito. Para ele o conceito é universal, enquanto se aplica aos indivíduos que dele participam, representando portanto, uma situação e não uma coisa em si. Procurou aproximar a teologia da lógica, ligando a trindade cristã ao conceito de Uma-Alma-Mente do neoplatonismo. Acreditava na capacidade da mente humana de alcançar o verdadeiro conhecimento natural e supernatural, defendia o exame critico das Escrituras à luz da razão. Prestava especial atenção à linguagem, suscetível a tantas interpretações quanto a diversidade dos que a empregam. Com isso, renovou o método de ensino da escolástica com a sua obra Pró e contra, sobre a interpretação das Escrituras e dos dogmas, adotando o sistema por meio do método inquisitivo, opondo-se as afirmações positivas às afirmações contrárias, usando o exame critico e a discussão dialética para elucidar as controvérsias, afirmando que só da dúvida surge o conhecimento, procurando assim, dar base lógica à doutrina cristã, mas seus métodos foram considerados heréticos. O pensamento de Abelardo é todo fundamentado na lógica e na dialética, ignorando a matemática, desinteressado pelas ciências naturais, sua doutrina apesar de brilhante e profunda, não pode ser considerada completa. Aproxima-se em sua essência do conceitualismo moderno e por sua moral individualista foi precursor do racionalismo Frances. Entre as suas principais obras estão Teologia cristã (1123), Ética ou livro chamado Conhece-te a ti mesmo (1129) e Cartas que foram traduzidas em 1879. Escreveu também o Tratado sobre a unidade e a trindade divina, obra que foi condenada pelo Concilio de Soissons, em 1121. Obrigado a abandonar a abadia por contestar a identificação tradicional de Saint Denis com Dionisio, o Areopagia, fundou com seus discípulos o mosteiro do Paracleto, que mais tarde doou a Heloisa e suas freiras. Como abade de Saint-Fildas-de-Ruys, combateu a corrupção e quase foi assassinado pelos monges corruptos. Voltando a ensinar na escola de Saint-Genevoève, recrudesceram os ataques às suas doutrinas teológicas e viu-se condenado pelo papa e pelo Concilio de Sens. Pretendia apelar para Roma, mas morreu antes de realizar seu intento. 


HELOISA – Enquanto professor em Nortre-Dame conhecera a moça de grande beleza e atributos intelectuais, chamada Heloisa, então com dezesseis anos e sobrinha do cônego Fulbert que, muito depois, surpreendem os dois, o que passou a ser um escândalo. A população passa a maldizer de Heloisa por tomar somente para si um homem tão importante. Por outro lado, ela achava que o casamento não convém a um filosofo, pois o governo de uma casa é incompatível com o estudo e o ensino. Preferia ser amante e não esposa, para que as alegrias que eles experimentassem fossem tanto mais intensas quanto mais raros os encontros. Apesar disso, por insistência de Abelardo, eles se casam secretamente em Paris. O cônego sentindo-se ultrajado, pois para ele nada poderia reparar a vergonha sofrida, passando a ameaçar o casal, o que o faz a levá-la para o mosteiro de Argenteuil. O cônego e familiares se vingam atacando-o e, ao final, emasculando-o. Em razão disso, ele se torna monge em Saint-Denis, mesmo sendo figura indesejável dos outros monges da abadia. A história do casal redundou na obra História das minhas calamidades. Do relacionamento do casal nasceu o filho, Astrolábio. Abelarde falece em 1142 e, em sua homenagem, Heloisa manda erguer uma sepultura. Ela falece em 1164 e, a seu pedido, foi enterrada ao lado da sepultura dele. Conta-se que ao abrirem a sepultura de Abelardo para enterrar Heloísa, encontraram o seu corpo ainda intacto e de braços abertos como se estivesse aguardando a chegada de sua amada.


STEALING HEAVEN (EM NOME DE DEUS) – No ano de 1988 foi lançado o filme Stealing Heaven (Em Nome de Deus), um drama baseado em fatos reais do romance medieval francês do século XII vivido por Pedro Abelardo e Heloísa, numa produção do Reino Unido/Yugoslávia, dirigido por Clive Donner e estrelado por Derek de Lint e Kim Thomson.

REFERÊCIA
ABELARDO, Pedro. Lógica para principiantes (lógica ingredientibus). São Paulo: Abril Cultural, 1979.
______. A história das minhas calamidades (carta autobiográfica). São Paulo: Abril Cultural, 1979.

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sábado, 31 de janeiro de 2015

UMA GOTA DE SANGUE, DE DEMÉTRIO MAGNOLI




[...] De Douglass a Obama, passando por Martin Luther King, um fio antirracial percorre dois séculos da história dos EUA. Os três, em circunstâncias distintas, ergueram-se como arautos do princípio da igualdade e insistiram em interpretar a nação americana por esse prisma. Contudo, uma poderosa corrente da história americana articulou-se em torno do mito da raça, isto é, do princípio da diferença, não da igualdade. Douglass combateu a escravidão e triunfou, mas, antes ainda de morrer, assistiu à edição das primeiras leis de segregação racial. Luther King insurgiu-se contra as leis segregacionistas e também triunfou, mas, na hora de seu assassinato, o mito da raça já ressurgia com todo o vigor sob a forma paradoxal das políticas de discriminação reversa. Obama separou-se das políticas de preferências raciais e deu um passo adiante, definindo-se como um mestiço, num país que continuava a classificar os cidadãos segundo critérios de raça.
[...] "Afro-americanos": a expressão, inventada junto com o multiculturalismo, não é mais que um reflexo pós-moderno da antiga visão da África como pátria de uma raça. Foi precisamente essa visão, importada do racismo clássico, que orientou a corrente predominante do movimento negro nos EUA, antes e depois de Luther King. É ela, igualmente, que sustenta os projetos de políticas de preferências raciais no Brasil dos nossos dias. A relação entre a cor da pele e uma origem racial e geográfica está presente, como não poderia deixar de ser, na própria África. Mia Couto, escritor moçambicano, discute a contrariedade de jovens de seu país com a atitude identitária do célebre ex-futebolista Eusébio da Silva Ferreira, nascido em Moçambique e herói da seleção portuguesa na Copa do Mundo de 1966, que se declara português de nacionalidade e coração: O caso de Eusébio pode ser revelador de outros fantasmas. A pergunta é: por que razão os africanos pretos não se podem converter numa outra 'coisa'? Se existem brancos que são africanos, se existem negros que são americanos, por que os pretos africanos não poderão ser europeus? O escritor dá um passo à frente: Existem hoje centenas de milhares de pretos que nasceram na Europa. Estudaram, cresceram, absorveram valores. Converteram-se em cidadãos dos países em que nasceram. A grande maioria vai viver para sempre nesses países. Terão filhos e netos europeus. E não podem cair na armadilha de reivindicar um gueto, uma espécie de cidadania de segunda classe que toma o nome de "afroeuropeu". Raça é, precisamente, a reivindicação de um gueto. O nome desse gueto é ancestralidade. A vida de um indivíduo que define o seu lugar no mundo em termos raciais está organizada pelos laços, reais ou fictícios, que o conectam ao passado. Mas a modernidade foi inaugurada por uma perspectiva oposta, que se coagula nos direitos de cidadania. Os cidadãos são iguais perante a lei e têm o direito de inventar seu próprio futuro, à revelia de origens familiares ou relações de sangue. A política das raças é uma negação da modernidade. Entretanto, a negação multiculturalista da modernidade é um fenômeno mo- derno. A "ciência das raças" nasceu no final do século xviii, junto com a Revolução Francesa e a consolidação do conceito de cidadania, e se desdobrou na forma de depravações extremadas até a Segunda Guerra Mundial. As políticas de preferências raciais disseminaram-se no pós-guerra, não muito depois da proclamação solene da Declaração Universal dos Direitos Humanos e do repúdio mundial ao racismo nazista. A mensagem do multiculturalismo é que o princípio da igualdade pode ser uma bela declaração, mas a realidade verdadeira é formada pelas diferenças essenciais entre as coletividades humanas. O "racismo científico" plantou as raças no solo da natureza, definindo-as como famílias humanas separadas pelas suas essências biológicas. Quando a ciência desmoralizou essa crença anacrônica, o multiculturalismo replantou as raças no solo da cultura. O argumento dos multiculturalistas, expresso sob formas diversas mas bastante similares, é que as raças são entidades sociais e culturais. Com base nisso, a política das raças, que parecia condenada a desaparecer na hora da aber- tura dos campos de extermínio nazistas, ressurgiu triunfante nos mais diferentes pontos do planeta. A produção de raças não exige distinções de cor da pele. Basta - como sa- bem os nigerianos, os quenianos e os ruandeses - a elaboração de uma narrativa histórica organizada a partir de cânones étnicos e, crucialmente, a inscrição dos grupos raciais nas tábuas da lei. A distribuição de privilégios segundo critérios de etnia ou raça grava nas consciências o senso de pertinência racial. A raça é uma profecia autorrealizável. As raças se apresentam, invariavelmente, como entidades muito antigas, com raízes fincadas na primavera dos tempos. De fato, elas são construções identitárias modernas ou, no mínimo, reelaborações recentes de identidades difusas de um passado mais profundo - como sabem os indianos, os malasianos e os bolivianos. A raça é fruto do poder de Estado que rejeita o princípio da igualdade entre os cidadãos. As políticas americanas de ação afirmativa baseadas na raça serviram de modelo para a África do Sul e o Brasil. Na África do Sul, o princípio da diferença racial, fixado nas leis e nas consciências desde a colonização até o regime do apartheid, forneceu o quadro lógico para as novas políticas preferenciais do black economic empowerment. No Brasil, ao contrário, o princípio da igualdade política encontra amparo na poderosa narrativa identitária da mestiçagem, que borrou as fronteiras de raça. Mesmo assim, em nome do multiculturalismo, o governo de Fernando Henrique Cardoso ensaiou dividir os cidadãos em "brancos" e "negros", e o governo de Luiz Inácio Lula da Silva patrocinou a introdução das primeiras leis raciais da história brasileira. No último ano do século xx, os cientistas que sequenciaram o genoma humano declararam a morte da raça. O mito da raça, entretanto, no lugar de se dissolver como uma crença anacrônica, algo parecido com a antiga crença em bruxas, persiste ou renasce na esfera política, desafiando a utopia da igualdade. É como se dissessem a Douglass que o 4 de Julho jamais poderá ser o seu dia.
[...] O deputado federal Chico Alencar, uma liderança do psol, partido situado à esquerda do PT, relatou um projeto de lei de autoria da senadora Roseana Sarney, herdeira do clã do ex-presidente José Sarney. Na sua forma original, o projeto determinava a fixação de três datas comemorativas para os "segmentos étnicos nacionais": o Dia do Índio, 19 de abril, em homenagem aos "povos autóctones"; o Dia do Descobrimento, 22 de abril, dedicado à chegada do "branco europeu"; o Dia da Consciência Negra, 20 de novembro, consagrado a "celebrar o negro". O substitutivo proposto pelo relator em 2007 não alterava a natureza do projeto, mas conferia-lhe tonalidades "combativas", renomeando o 19 de abril como Dia de Luta dos Povos Indígenas e transformando o 20 de novembro em feriado nacional.8 Há uma lógica férrea no pensamento racial, que funciona como alicerce subterrâneo do projeto de lei da improvável dupla Sarney-Alencar. Essa lógica pode ser expressa assim: uma raça só ganha existência no interior do grande painel das raças - isto é, o "negro" precisa do "branco" para ser negro, e vice-versa. A "consciência negra", quando incrustada na letra da lei, conduz em algum momento à manufatura legal de uma "consciência branca". De fato, para todos os efeitos, a novidade do projeto das datas étnicas encontra-se na produção de um "Dia do Branco" como complemento racialista indispensável do "Dia do Negro". As nações, como explicaram os historiadores Terence Ranger e Eric Hobsbawm, são fábricas de "invenção das tradições". A narrativa do "encontro das três raças", construída ao longo de cem anos, entre a independência e o início do século xx, configura um mito imaturo, inacabado, aberto à interpretação do futuro. Inicialmente, ele foi preenchido pela proposição da harmonia. Depois, a crítica histórica evidenciou a dor e a opressão como elementos nucleares do sistema escravista, bem como o lento genocídio fragmentário que dizimou os povos indígenas. Mas nada disso abalou os alicerces de um mito fundamentalmente antirracial que, desde a metáfora da confluência dos rios, propiciou à nação uma utopia positiva. Visto superficialmente, o projeto de lei inscreve-se na linha de continuidade do mito original. Mas, na verdade, o seu significado é o oposto disso: a instituição de três datas étnicas associadas a grupos raciais representa uma negação da mistura de águas anunciada por Martius. Os rios celebrados pelo projeto de lei são cursos d'água paralelos, que drenam terras contíguas, mas nunca se encontram. Não há nada de fortuito na proposição emanada dos esforços combinados dos dois parlamentares situados em lugares aparentemente tão distantes no espectro político. Ela reflete a reação ideológica contra a narrativa da mestiçagem e, no fim das contas, coagula a imagem de um país reinventado como espaço geopolítico onde coexistem nações distintas, separadas pelo sangue. No Brasil, as pesquisas sobre atitudes diante do racismo oferecem resultados curiosos e, ao mesmo tempo, esclarecedores. Diversas enquetes revelam que uma vasta maioria dos brasileiros admite a existência de discriminação racial no país, especialmente em episódios de operações policiais nas periferias e favelas. Entretanto, ao mesmo tempo, maiorias muito expressivas declaram não nutrir preconceito racial. O antropólogo Peter Fry menciona uma pesquisa respeitada na qual 87% dos entrevistados que se declaravam "brancos" e 91% dos que se designavam "pardos" afirmavam não ter preconceito nenhum contra "negros". Na mesma pesquisa, 87% dos que se definiam como "pretos" negavam nutrir preconceito contra "brancos". Mais interessante ainda: 64% dos "pretos" e 84% dos "pardos" declararam nunca ter sido alvos de preconceito racial. O paradoxo aparente expresso nas pesquisas não encontra explicação na moldura lógica do racialismo, que só pode negar a sinceridade das respostas incongruentes com a sua teoria social. Mas, fora do quadro do racialismo e admitindo-se a validade das respostas, as pesquisas indicam que a discriminação racial no Brasil é percebida como um fenômeno bastante minoritário, ainda que algumas de suas manifestações sejam intensas. O exemplo notório de uma dessas manifestações é a seleção, por agentes policiais, de jovens de pele mais escura como suspeitos prévios de atos ilícitos. Um informante branco ofereceu aos sociólogos Florestan Fernandes e Roger Bastide um diagnóstico já célebre: "Nós, brasileiros, temos preconceito contra ter preconceito." A afirmação, interpretada pelos racialistas, seria um indício dos males ocasionados pelo "mito" - no sentido vulgar, de mentira ou ocultação - da "democracia racial". A tarefa consistiria em riscar não o preconceito racial, mas o "preconceito contra ter preconceito", de modo a permitir a emersão de um confronto de interesses raciais. Mas, efetivamente, a afirmação indica que o "mito" - no sentido antropológico de utopia coletiva - da "democracia racial" conduz a atitudes antirracistas, crismando o preconceito como algo intolerável. É uma plataforma inigualável, se a meta for a edificação de uma democracia cega para a cor da pele dos cidadãos. Os brasilianistas do pós-guerra, embalados pela visão da declaração antirracista da Unesco de 1950, descreveram o Brasil como um país que, apesar de suas gritantes desigualdades, escolhera um rumo diferente daquele dos eua e não erguera muralhas identitárias entre grupos raciais. O historiador britânico Timothy Garton Ash não é um brasilianista, mas visitou o Brasil no auge do entusiasmo governamental pelas políticas multiculturalistas e deixou o seguinte testemunho: Estou consciente [...] de que corro o risco de parecer um forasteiro rico e branco [...] que se aventura nas favelas durante uns dias e exclama: "Que bonitos são todos!". Eu mesmo poderia escrever a sátira correspondente. Mas não tenho alternativa senão dizê-lo: o que vislumbrei no Brasil, inclusive em meio à pobreza e à violência da Cidade de Deus, é a beleza da mestiçagem. Aprendi a exaltá-la seguindo o exemplo dos próprios brasileiros. E essa mistura é precisamente o que contribuiu para que estejam entre os seres humanos mais belos do pla- neta. O que aqui se anuncia - mas, insisto: se, e apenas se, o Brasil for capaz de corrigir seus espantosos desequilíbrios sociais e econômicos e um legado de discriminação - é a possibilidade de um mundo em que a cor da pele não seja mais que um atributo físico, sem mais, como a cor dos olhos ou a forma do nariz, e que se possa admirá-lo, mencioná-lo ou fazer piada sobre ele. Um mundo em que a única raça importante seja a raça humana. A polêmica sobre as políticas de raça remete a uma questão de fundo sobre o projeto nacional brasileiro. No fim das contas, os arautos do multiculturalismo estão dizendo que o Brasil fracassou historicamente como nação e deve começar de novo, reinventando-se desde o início, pelo cancelamento do mito de origem da confluência dos rios. Eles estão dizendo que a mestiçagem é uma mentira abominável - e que o Brasil foi erguido sobre essa mentira. Inversamente, os críticos das políticas raciais pensam que há algo de muito positivo, para toda a humanidade, no projeto nacional do Brasil. Os brasileiros não aprenderam a separar as pessoas segundo o cânone do mito da raça. Nós imaginamos que as águas podem - e devem! - se misturar. Que a única raça importante é a raça humana.

UMA GOTA DE SANGUE – O livro Uma gota de sangue: história do pensamento racial, do sociólogo Demétrio Magnoli trata desde a condição do ex-escravo Frederik Douglass se tornar um dos mais importantes abolicionistas dos EUA, sob a influencia de Lysander Spooner, como da classificação, ordenamento, hierarquia, taxonomia da espécie humana, o surgimento do racismo científico, a teoria da recapitulação de Haeckel, a divisão por raças de Alexis Tocqueville, o conceito de desigualdade essencial entre os homens, o principio iluminista da igualdade, do fardo do homem branco de Rudyard Kipling, da ontogênese recapitulando a filogênese, a teoria das raças inferiores de Eward Dinker Cope de que negros, muleres europeias meridionais e pobres são incapazes, os caracteres adquiridos pelos uso e desuso de Herbert Spencer, , Darwin e Lamarck, o positivismod e Lewis H. Morgan, a teoria da evolução culytural, a teoria do uomo delinquente de Cesare Lombroso e a antropologia criminal, o atavismo criminal, Proudhon e o censo de Charles Hirschman, o nacional e o estrangeiro, o mito do sangue e a religião de sangue, ariosofia, os protocolos dos sábios de Sião, a eugenia de Galton, as ideias de Hitler de que os judeus parasiam as nações, a lei para prevenção da descendência hereditária, a eutanásia, o movimento de higiene racial alemão, a teoria da regeneração de Morel, a teoria da linguagem religiosa, a teoria da degeneração e da higienel racial, o principio de diferenciação e o principio da igualdade de oportunidade, a miscigenação, o novo colosso de Emma Lazarus, a regra da gota de sangue única, Gobineau e o racismo cientifico do séc. XIX, a trajetória do racismo, do multiculturalismo e das campanhas antiracistas, até o advento das quotas por meio do fardo do homem branco: uma história de sangue, a ciência das raças, uma missão na África, classificando os nativos, a nação como linhagem, Hitler e a crise da raça, Leis de Nuremberg, a raça rejeitada, a revolta de Soweto, o triunfo do multiculturalismo, One drop rule? Loving dat, preto no branco, índio morto e índio posto, back to Áfica, o império contra o tráfico, o sonho pan-africano, os três filhos de Gihanga, o oriente e a restauração das castas, os filhos do solo, a fábrica de ideologias, a abolição da abolição, doenças de negros, a cor da pobreza, os rios que se encontram, entre outros assuntos que envolvem toda a trajetória do preconceito, da discriminação e do racismo.

REFERÊNCIA
MAGNOLI, Demétrio. Uma gota de sangue: história do pensamento racial. São Paulo: Contexto, 2009.

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