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sábado, 19 de setembro de 2026

CAOSMOSE, FÉLIX GUATTARI

 

O QUE É CAOSMOSE? – (Imagem: Pulsações do efêmero, da série Caosmose & o poema nasce do visinvisível, acervo ArtLAM). O termo Caosmose popularizou-se com a publicação da obra Caosmose: Um Novo Paradigma Estético (Ed. 34, 1992), do filósofo e psicanalista francês Félix Guattari, obra esta que se torna  um marco fundamental para se repensar os processos de produção de subjetividade, em um mundo cada vez mais marcado por fluxos de informação, mutações tecnológicas e rearranjos políticos. Nela, o autor articula conceitos como “heterogênese”, “ecosofia” e “ritornelo”, para demostrar que a subjetividade não se limita ao campo individual ou à estrutura familiar, mas é atravessada por dimensões coletivas, estéticas e maquínicas. Diante disso, ele rompe com modelos reducionistas, por meio do convite em ampliar o olhar para a forma como as instâncias psíquicas, sociais e tecnológicas se entrelaçam. Com isso, questiona a influência do capitalismo e das grandes narrativas sobre a psique, apontando caminhos para processos de re-singularização e invenção de novas formas de existir, razão pela qual a obra passa a ter importância pelo fato de emergir a capacidade de renovar a reflexão crítica, abrindo novas possibilidades para a produção e compreensão da subjetividade contemporânea. Está assentada no argumento de que não existe uma hierarquia fixa, onde uma única instância – econômica, política ou psicológica – determinaria todas as outras. Pelo contrário, sob uma interdependência complexa, em que a dimensão subjetiva se produz continuamente a partir de múltiplos fatores, uma vez que a subjetividade não deve ser vista como algo estático ou exclusivamente fruto de uma estrutura, mas ser encarada como um processo em constante produção, que ora se redefine diante de eventos históricos, ora se reinventa pela criatividade do indivíduo e pelas interações coletivas.

Trata-se, portanto, de um conceito criado pela junção das palavras caos, que significa desordem, e cosmos, ordem, indicando uma dinâmica constante na qual a desordem gera potencial criativo e dá origem a novas formas de organização. Este tema está relacionado com os estudos da esquizoismo e da filosofia da diferença desenvolvidos com Gilles Deleuze. As principais dimensões do conceito envolvem desde a subjetividade em transformação, ou seja, observando-se que a mente e a identidade não são fixas, mas formadas no fluxo contínuo entre momentos caóticos e de estruturação; a força criativa, considerando que o caos não é visto apenas como destruição, mas como um espaço fértil de onde brotam novas ideias, sociedades e obras de arte; e o paradigma estético de que a arte atua como captadora e operadora dessa passagem viva entre o caos informe e a criação de sentido.

No estudo Caosmose, desterritorialização e amorosidade na comunicação (Questões Transversais – Revista de Epistemologias da Comunicação, 2014), a professora Maria Luiza Cardinale Baptista esclarece que a palavra caosmose é emblemática para caracterizar a Ciência Contemporânea e também os processos comunicação, destacando a sustentação teórica elaborada por Félix Guattari, Gilles Deleuze e Suely Rolnik. Ressalta a professora que a máquina aqui relacionada não é a máquina mecânica, mas representação de um conjunto de fluxos e engendramentos, concretos e abstratos, em que feixes interacionais vão constituindo algo como um campo de potência para devires. Observa mais a autora que essas máquinas abstratas podem ser desde uma instituição, como uma universidade, até um território geográfico, como um país, mas implicam dimensões que extrapolam o visível, o dizível, o concreto. Tudo isso é considerado, mas simultaneamente ao que escapa às leis e às padronizações narrativas de qualquer organização maquínica. Nesse sentido, a caosmose é platô contemporâneo, marcado pelo caos em múltiplas dimensões, social, econômico, político e também em termos de maquinismos e redes midiáticas.

Na obra em estudo, o autor assinala que: [...] O mundo só se constitui com a condição de ser habitado por um ponto umbilical de desconstrução, de destotalização e de desterritorialização, a partir do qual se encarna uma posicionalidade subjetiva [...]. Assim, o ponto de partida está no fato de que a subjetividade não é algo fixo ou determinado, mas um processo em constante transformação, influenciado por fluxos sociais, econômicos, culturais e estéticos, que, no mundo contemporâneo bombardeia por meio desses fluxos, que, por sua vez, moldam nossas formas de ser, pensar e sentir. No entanto, em vez de considerar o caos resultante dessas interações como algo negativo ou desestabilizador, ele o vê como uma força criativa que possibilita novas formas de existência e de subjetividade. Neste sentido, a estética desempenha um papel central, uma vez que a arte e a criação estética têm o poder de reorganizar os fluxos de subjetividade e de abrir novas dimensões de percepção e sensibilidade. Por consequência, Guattari sugere que a estética é um paradigma central para a transformação das subjetividades contemporâneas.

Outro conceito-chave elaborado pelo autor é o de ecosofia, uma noção que combina ecologia, filosofia e ética. Para Guattari, a crise ambiental e a crise da subjetividade são profundamente interconectadas. E com isso propõe uma nova maneira de pensar sobre a relação entre os humanos e o planeta, reconhecendo a interdependência entre todos os seres e sistemas ecológicos, uma vez que a transformação das subjetividades e das relações sociais é essencial para lidar com a crise ecológica global, criticando a racionalidade instrumental do capitalismo, que busca reduzir a vida a processos de produção e consumo previsíveis e controláveis. Em suma: Caosmose é uma chamada pelo engajamento com o caos criativo do mundo, utilizando-se dessa energia para criar novas formas de vida, novas subjetividades e novas maneiras de nos relacionar com o planeta. Veja mais aqui & aqui.