O QUE É CAOSMOSE? – (Imagem: Pulsações do
efêmero, da série Caosmose & o poema nasce do visinvisível, acervo
ArtLAM). O termo Caosmose popularizou-se com a publicação da obra Caosmose:
Um Novo Paradigma Estético (Ed. 34, 1992), do filósofo e
psicanalista francês Félix Guattari, obra esta que se torna um marco fundamental para se repensar os
processos de produção de subjetividade, em um mundo cada vez mais marcado por
fluxos de informação, mutações tecnológicas e rearranjos políticos. Nela, o autor
articula conceitos como “heterogênese”, “ecosofia” e “ritornelo”, para demostrar
que a subjetividade não se limita ao campo individual ou à estrutura familiar,
mas é atravessada por dimensões coletivas, estéticas e maquínicas. Diante disso,
ele rompe com modelos reducionistas, por meio do convite em ampliar o olhar
para a forma como as instâncias psíquicas, sociais e tecnológicas se
entrelaçam. Com isso, questiona a influência do capitalismo e das grandes
narrativas sobre a psique, apontando caminhos para processos de
re-singularização e invenção de novas formas de existir, razão pela qual a obra
passa a ter importância pelo fato de emergir a capacidade de renovar a reflexão
crítica, abrindo novas possibilidades para a produção e compreensão da
subjetividade contemporânea. Está assentada no argumento de que não existe uma
hierarquia fixa, onde uma única instância – econômica, política ou psicológica
– determinaria todas as outras. Pelo contrário, sob uma interdependência
complexa, em que a dimensão subjetiva se produz continuamente a partir de
múltiplos fatores, uma vez que a subjetividade não deve ser vista como algo
estático ou exclusivamente fruto de uma estrutura, mas ser encarada como um processo
em constante produção, que ora se redefine diante de eventos históricos, ora se
reinventa pela criatividade do indivíduo e pelas interações coletivas.
Trata-se,
portanto, de um conceito criado pela junção das palavras caos, que
significa desordem, e cosmos, ordem, indicando uma dinâmica constante na qual a
desordem gera potencial criativo e dá origem a novas formas de organização. Este
tema está relacionado com os estudos da esquizoismo e
da filosofia da diferença desenvolvidos com Gilles Deleuze. As principais dimensões
do conceito envolvem desde a subjetividade em transformação, ou seja, observando-se
que a mente e a identidade não são fixas, mas formadas no fluxo contínuo
entre momentos caóticos e de estruturação; a força criativa, considerando que o
caos não é visto apenas como destruição, mas como um espaço fértil de onde
brotam novas ideias, sociedades e obras de arte; e o paradigma estético de que
a arte atua como captadora e operadora dessa passagem viva entre o caos informe
e a criação de sentido.
No estudo Caosmose,
desterritorialização e amorosidade na comunicação (Questões
Transversais – Revista de Epistemologias da Comunicação, 2014), a professora Maria
Luiza Cardinale Baptista esclarece que a palavra
caosmose é emblemática para caracterizar a Ciência Contemporânea e também os
processos comunicação, destacando a sustentação teórica elaborada por Félix
Guattari, Gilles Deleuze e Suely Rolnik. Ressalta a professora que a máquina aqui
relacionada não é a máquina mecânica, mas representação de um conjunto de
fluxos e engendramentos, concretos e abstratos, em que feixes interacionais vão
constituindo algo como um campo de potência para devires. Observa mais a autora
que essas máquinas abstratas podem ser desde uma instituição, como uma
universidade, até um território geográfico, como um país, mas implicam
dimensões que extrapolam o visível, o dizível, o concreto. Tudo isso é
considerado, mas simultaneamente ao que escapa às leis e às padronizações narrativas
de qualquer organização maquínica. Nesse sentido, a caosmose é platô
contemporâneo, marcado pelo caos em múltiplas dimensões, social, econômico,
político e também em termos de maquinismos e redes midiáticas.
Na obra
em estudo, o autor assinala que: [...] O mundo só se constitui com a condição de ser habitado por um
ponto umbilical de desconstrução, de destotalização e de desterritorialização,
a partir do qual se encarna uma posicionalidade subjetiva [...]. Assim, o ponto de partida está no fato
de que a
subjetividade não é algo fixo ou determinado, mas um processo em constante
transformação, influenciado por fluxos sociais, econômicos, culturais e
estéticos, que, no mundo contemporâneo bombardeia por meio desses fluxos, que,
por sua vez, moldam nossas formas de ser, pensar e sentir. No entanto, em vez
de considerar o caos resultante dessas interações como algo negativo ou
desestabilizador, ele o vê como uma força criativa que possibilita novas formas
de existência e de subjetividade. Neste sentido, a estética desempenha um papel
central, uma vez que a arte e a criação estética têm o poder de reorganizar os
fluxos de subjetividade e de abrir novas dimensões de percepção e
sensibilidade. Por consequência, Guattari sugere que a estética é um paradigma
central para a transformação das subjetividades contemporâneas.
Outro conceito-chave elaborado
pelo autor é o de ecosofia, uma noção que combina ecologia, filosofia e
ética. Para Guattari, a crise ambiental e a crise da subjetividade são
profundamente interconectadas. E com isso propõe uma nova maneira de pensar
sobre a relação entre os humanos e o planeta, reconhecendo a interdependência
entre todos os seres e sistemas ecológicos, uma vez que a transformação das
subjetividades e das relações sociais é essencial para lidar com a crise
ecológica global, criticando a racionalidade instrumental do capitalismo, que
busca reduzir a vida a processos de produção e consumo previsíveis e
controláveis. Em suma: Caosmose é uma chamada pelo engajamento com o
caos criativo do mundo, utilizando-se dessa energia para criar novas formas de
vida, novas subjetividades e novas maneiras de nos relacionar com o planeta.
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