sábado, 7 de novembro de 2026

OS SONHOS, A PSICANÁLISE & AS NEUROCIÊNCIAS

 

OS SONHOS, A PSICANÁLISE & AS NEUROCIÊNCIAS - Efetuando uma revisão da literatura, encontra-se que os sonhos são experiências mentais, visuais e emocionais que ocorrem principalmente durante o sono REM (Rapid Eye Movement ou movimento rápido dos olhos), embora também possam surgir em fases mais leves do sono. Para Sidarta Ribeiro: “Os sonhos são uma experiência extremamente valiosa para conhecermos nosso mundo interior. O sonho é algo de mais alta ordem, articulando memórias complexas na forma de enredos oníricos, verdadeiras simulações do ambiente e do sonhador”. Na visão de Rahul Jandial: “Quando sonhamos, estamos ensaiando múltiplas versões de nós mesmos diante de cenários desafiadores... Os sonhos libertam o cérebro das restrições lógicas que temos durante o estado de vigília... Isso nos permite conectar ideias aparentemente desconexas e criar soluções inovadoras”. Neste sentido, ele aborda os sonhos como produtos naturais da eletrofisiologia cerebral e dos ritmos circadianos, descrevendo-os como uma extensão única da nossa identidade, oferecendo um panorama sobre o papel dessas experiências na saúde, no desenvolvimento emocional e nos processos criativos. Já Mark Solms tem construído uma ponte entre a neurologia e a psicanálise, examinando de onde vêm os sonhos e que sensações e sentimentos são registrados ou não pela consciência. Assim, na relação entre o cérebro e os sonhos, conforme os estudos desenvolvidos por Sidarta Ribeiro, como também dos neurocientistas Jandial e Solms, observa-se que ocorre no cérebro durante o sonho uma ativação emocional e sensorial, em que áreas do cérebro ligadas à visão, à audição, ao movimento e às emoções (como a amígdala e o hipocampo) ficam altamente ativas, fazendo com que o sonho pareça totalmente real para a mente. Também ocorre um desligamento da razão, uma vez que o córtex pré-frontal (responsável pelo raciocínio lógico, planejamento e controle de impulsos) tem sua atividade drasticamente reduzida., levando-se a considerar que esta é a razão pela qual ocorrem sonhos absurdos, bizarros ou desconectados do tempo e do espaço sem que se perceba a estranheza na hora. Também ocorre uma paralisia corporal, quando o tronco encefálico promove uma paralisia temporária dos músculos voluntários (com exceção dos olhos e da respiração). No tocante às funções biológicas, observou-se que os sonhos servem para consolidação da memória, uma vez que o cérebro aproveita o sono para organizar, filtrar e fixar as informações e aprendizados obtidos ao longo do dia; uma regulação e processamento emocional, tendo em vista que o sono e os sonhos funcionam como um "terapeuta noturno", ajudando a diminuir a carga emocional de traumas, ansiedades e conflitos vividos na vigília; e estímulo à criatividade, pelo fato de que com a lógica desligada, o cérebro consegue fazer associações livres e inusitadas entre ideias que pareceriam impossíveis acordados (fenômeno que já ajudou cientistas e artistas a resolverem problemas complexos). Também há uma corrente neurocientífica que atribuem como serventia dos sonhos para o cérebro, embasados na Teoria da Simulação de Ameaças, sugerindo que o cérebro simula cenários perigosos ou estressantes no ambiente seguro do sono para "treinar" a nossa resposta a medos e perigos. Faz-se conveniente observar o papel da melatonina, que é um hormônio produzido naturalmente pela glândula pineal, localizada no cérebro e sua principal função é sinalizar ao organismo o início da noite e ajudar a regular o ritmo circadiano, ou seja, o ciclo biológico de sono e vigília. Desta forma, a melatonina serve para regulação do sono, ajudando a induzir e iniciar o sono; utilizada em casos de jet lag (mudança de fuso horário), distúrbios do ritmo circadiano ou quadros específicos de atraso de fase do sono; e não apaga o cérebro, apenas avisa que está escuro e que o corpo deve se preparar para descansar. Para a Psicanálise, Sigmundo Freud afirmou que: “Muitas vezes sabemos que sonhamos, sem saber o que sonhamos; e estamos tão familiarizados com o fato de os sonhos serem passíveis de ser esquecidos que não vemos nenhum absurdo na possibilidade de alguém ter tido um sonho à noite e, pela manhã, não saber o que sonhou, nem sequer o fato de ter sonhado. Por outro lado, ocorre às vezes que os sonhos mostram extraordinária persistência na memória. Tenho analisado sonhos de pacientes meus, ocorridos há vinte e cinco anos ou mais, e lembro-me ainda de um sonho que eu próprio tive há mais de trinta e sete anos e que, no entanto, está mais nítido que nunca em minha memória. Tudo isso é muito notável e não é inteligível de imediato.” Para ele os materiais dos são os restos ou reminiscências diurnos, a censura e os símbolos. Ele ensina que os sonhos são motivados por coisas que aconteceram na véspera do sonho, as chamadas reminiscências diurnas. Essas reminiscências são restos da memória diurna de algo, ou de alguém, de uma situação, que se apresentou no dia anterior que de algum modo volta a aparecer no sonho, sendo, portanto, estes os elementos da vida cotidiana de um passado recente. Assegura que os sonhos, eles seriam a via incontornável para o inconsciente, por conta tanto do conteúdo manifesto (aquilo de que se lembra quando acorda, a "história" ou as imagens do sonho), como o conteúdo latente (que é o verdadeiro significado, os desejos ocultos, conflitos ou angústias que estão por trás da imagem manifesta. Em seus estudos ele tratou sobre o Trabalho do Sonho (Traumarbeit), que é o mecanismo que transforma o conteúdo latente (inconsciente) no conteúdo manifesto, usando ferramentas como: condensação (várias ideias ou pessoas são fundidas em uma única imagem no sonho), deslocamento (a carga emocional de um pensamento importante é transferida para algo aparentemente irrelevante) a dramatização e simbolização (ideias abstratas são transformadas em cenas visuais e símbolos) e a censura (uma barreira psíquica que tenta impedir que desejos proibidos ou traumáticos apareçam de forma crua, obrigando-os a se disfarçar para não acordar o sonhador). Já para Carl Gustv Jung, o sonho é um revelador do ego e do self: “O sonho é um fenômeno psicológico que se produz durante o sono, constituído por uma série de imagens cujo desenrolamento representa um drama mais ou menos concatenado. Os sonhos são miúde antecipações que perdem todo o seu sentido se examinadas de um ponto e vista puramente casual... O sonho, como todo processo vivo, é não somente uma sequencia causal, mas também um processo orientado para um fim... pode-se pois exigir do sonho – que é uma autodescrição do processo da vida psíquica – indicações sobre as causas objetivas da vida psíquica e sobre as tendências objetivas desta... É preciso não esquecer que se sonha em primeiro lugar, e quase exclusivamente, consigo mesmo e através de si mesmo... Todo equilíbrio psicológico do ser se faz, entre seus planos conscientes e seus planos inconscientes, na dimensão da verticalidade, tal como, num veleiro, o equilíbrio entre a vela e a quilha”. Assim, para ele, os sonhos são mensagens espontâneas do inconsciente expressas em linguagem simbólica e funcionam como uma ponte direta para o autoconhecimento e para o processo de individuação (o desenvolvimento da totalidade do ser). Há entre as possibilidades as questões premonitórias, muito embora a neurociência não encontre provas de que sonhos prevejam o futuro, considerando apenas que o que acontece é uma mistura de coincidência, processamento lógico subconsciente do dia a dia e viés de confirmação (só lembra do sonho quando ele "casa" por acaso com algo real). Por outro lado, não sonhar é um alerta: a ausência de sonhos (geralmente associada à falta de sono REM de qualidade) pode prejudicar a memória, a estabilidade emocional e até causar declínio cognitivo com o tempo. Para melhorar a qualidade do sono e a sonhar é recomendado manter horários regulares para dormir, deixar o quarto escuro e evitar telas antes de deitar. Quanto aos sonhos lúcidos, ou seja, quando se tem consciência de que está sonhando enquanto o sonho ainda está acontecendo, cientificamente, representa um estado híbrido: o corpo está no sono REM, mas partes do córtex pré-frontal (a área da lógica e da autoconsciência) "acordam" e são reativadas. Para induzir esse estado, as neurociências e as psicologias validam quatro técnicas principais, quais sejam: Testes de Realidade (Reality Checks), com o objetivo é criar o hábito de questionar a realidade enquanto está acordado e o cérebro repita esse comportamento automaticamente dentro do sonho; o MILD (Mnemonic Induction of Lucid Dreams), desenvolvida pelo pioneiro dos sonhos lúcidos, Dr. Stephen LaBerge, técnica que usa a memória prospectiva (a habilidade de lembrar de fazer algo no futuro); a WBTB (Wake Back to Bed), técnica que aproveita o fato de que os períodos de sono REM ficam muito mais longos nas últimas horas da noite; e WILD (Wake-Initiated Lucid Dreams), técnica que consiste em passar do estado de vigília (acordado) direto para o estado de sonho, sem perder a consciência no processo. Observa-se que, conforme anotado por Cheniaux (2010), “o diálogo entre a neurociência e a psicanálise sobre os sonhos pode ser bastante profícuo: proposições da psicanálise têm inspirado e guiado investigações neurocientíficas, e achados da neurociência têm sido úteis para um maior refinamento da teoria psicanalítica”. Mediante o exposto, observa-se que o sonho é tão necessário ao equilíbrio biológico e mental, como o sono, o oxigênio e uma alimentação sadia.

 

REFERÊNCIAS

CHENIAUX, E. Os sonhos: integrando as visões psicanalítica e neurocientífica. Revista da Sociedade de Psiquiatria do Rio Grande do Sul. 28 (2) - Ago 2006.

FOSTER, M. Interpretação de sonhos e contemporaneidade: uma regra ainda fundamental. Jornal Psicanálise, vol.50 no.93 São Paulo Dec. 2017.

FREUD, S. The interpretation of dreams. Basic, 2010.

JANDIAL , R. This Is Why You Dream: What Your Sleeping Brain Reveals About Your Waking Life. Cornerstone Press, 2024.

JUNG, C. Seminário sobre sonhos de crianças: sobre o método de interpretação dos sonhos – Interpretação psicológica de sonhos de crianças. Petrópolis: Vozes, 2011.

______. Sobre sonhos e transformações. Petrópolis: Vozes, 2014.

______. Sonhos. Petrópolis: Vozes, 2021.

OGDEN, T. Reconsiderando tres aspectos de la técnica psicoanalítica. Psicoanálisis ApdeBa, 20(1), 1998

RIBEIRO, S. Sidarta Ribeiro, Sonho Manifesto: Dez exercícios urgentes de otimismo apocalíptico. Companhia das Letras, 2022.

______. Sidarta Ribeiro, O oráculo da noite: A história e a ciência do sonho. Companhia das Letras, 2019.

SOLMS, M. The Hidden Spring: A Journey to the Source of Consciousness. W. W. Norton & Company, 2021.

 

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